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Marquesa de Santos, bem mais que amante

por Paulo Rezzutti


Nascida na cidade de São Paulo em 27 de dezembro de 1797, Domitila de Castro do Canto e Melo, Titília para os familiares e amigos, era a sétima e penúltima filha do casal João de Castro Canto e Melo, militar açoriano, e Escolástica Bonifácia de Toledo Ribas. Por pai, descendia da nobreza lusitana; pela mãe, das primeiras famílias paulistas.

Alta, pele clara e expressivos olhos escuros, Titília casou-se em São Paulo, aos 15 anos, com o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça (1789-1833), de proeminente família mineira dona de lavras de ouro, e mudou-se para Vila Rica. O casamento durou de 1813 a 1819 e gerou três filhos: Francisca, Felício e João, falecido criança. O mineiro de boa família acabou se revelando, após o casamento, um homem violento. Bebia, perdia dinheiro com jogos de azar e maltratava a esposa. A família de Domitila aceitou-a de volta em São Paulo, para onde ela fugiu com os filhos em 1816. Felício conseguiu uma transferência, e os dois buscaram refazer o casamento. Mas as coisas continuaram não dando certo. Tentando vender as terras que o casal havia herdado com a morte da mãe, Felício falsificou a assinatura de Domitila no contrato e depois tentou assassiná-la. Em 6 de março de 1819, armou uma emboscada próximo à bica de Santa Luzia, em São Paulo, onde a esfaqueou. Tentando justificar o crime como “legítima defesa da honra”, Felício alegaria, sem apresentar provas, que a esposa lhe era infiel. O alferes foi preso e levado para o Rio de Janeiro, e Domitila levou mais de um mês para se restabelecer.

A moral da época exigia que ela aguentasse firme ao lado desse homem, mas a tentativa de assassinato foi a gota d’água. Segundo a lei da época, era o suficiente para o divórcio, que só se realizaria cinco anos depois. Abrigada na casa paterna, Domitila ainda teria que lutar pela guarda dos filhos, que o pai de Felício queria que fossem enviados para Minas para serem educados.

O então príncipe regente d. Pedro (1798-1834) chegou a São Paulo em agosto de 1822, acompanhado do irmão caçula de Domitila, o alferes Francisco de Castro (1799-1868), que lhe apresentou a família. O príncipe era casado desde 1817 com a arquiduquesa austríaca Leopoldina de Habsburgo (1797-1826). O relacionamento entre d. Pedro e Domitila teve início em 29 de agosto de 1822 e terminou definitivamente em 1829. Sete anos que podem ser acompanhados nas mais de 200 cartas trocadas entre eles e dispersas em arquivos públicos e particulares, nacionais e estrangeiros.

Domitila e família mudaram-se para a corte em 1823, onde viveriam sob a proteção de D. Pedro, coroado imperador em dezembro do ano anterior. Em 4 de abril de 1825, após ser afrontada pelas damas de companhia da imperatriz, ela foi nomeada Dama Camarista, posto acima das demais damas do paço. No mesmo ano, em 12 de outubro, foi feita Viscondessa de Santos, e em 12 de outubro de 1826 recebeu o título de Marquesa de Santos, ambos acrescidos com as honras de grandeza.

Do relacionamento com d. Pedro I, Domitila teve cinco filhos, sobrevivendo apenas duas meninas: Isabel Maria (1824-1898), reconhecida pelo imperador e feita Duquesa de Goiás, e Maria Isabel (1830-1896), condessa de Iguaçu por casamento. Com a morte da imperatriz d. Leopoldina, d. Pedro buscou uma nova esposa na Europa. Com a aproximação da chegada ao Rio de Janeiro da nova imperatriz brasileira, d. Amélia de Leuchtenberg (1812-1873), Domitila, grávida da última filha do imperador, foi banida pelo amante da corte no segundo semestre de 1829.

A Domitila que voltou para a provinciana São Paulo em 1829 era bem diferente da que havia partido para Minas com o marido em 1813. Com bens que incluíam mais de quarenta escravos, tornou-se uma das pessoas mais abastadas da cidade, e isso significava independência.

No início de 1833 envolveu-se com o então presidente da Província de São Paulo, Rafael Tobias de Aguiar, riquíssimo sorocabano. O relacionamento foi oficializado somente em 1842 em Sorocaba, durante a Revolução Liberal. Domitila só concordou com o casamento “de papel passado” quando o destino do companheiro, principal líder do movimento, tornou-se incerto. Diferente dos costumes da época, a Marquesa exigiu que o casamento fosse feito com separação de bens. Assim ela continuaria gerindo a sua própria fortuna, mantendo-se independente financeiramente.

Ela partiu sozinha com os filhos de São Paulo para se juntar ao marido em Sorocaba, cruzando à noite o campo no meio da movimentação de dois exércitos. Com o término da revolta, e a consequente fuga de Tobias para o Rio Grande do Sul, Domitila refugiou-se com as crianças e a sogra em um convento de Sorocaba, onde logo assumiu a liderança. Cavou ela mesma uma vala no jardim do prédio para esconder os bens da família e do próprio convento. A sua presença impediu que as tropas governamentais que invadiram a cidade profanassem o local. Como deferência pela marquesa, o Barão de Caxias, futuro Duque (1803-1880), mandou que alguns oficiais a escoltassem para São Paulo, não sem antes escrever para a esposa dando notícias sobre Domitila: “Estimei que a marquesa se vá conservando fresca”. Na época, ela tinha 44 anos e já havia passado por 14 gestações.

Domitila, ao saber que Tobias de Aguiar fora capturado e levado preso para o Rio de Janeiro, partiu para a corte e rogou, por meio de um procurador, para que o imperador d. Pedro II (1825-1891) a deixasse cuidar do companheiro doente. O requerimento foi deferido, e ela pôde morar com o marido na prisão. Meses depois, o imperador anistiou os envolvidos na revolução, e o casal voltou para casa. Ela e Tobias ficaram juntos por 24 anos, até a morte dele, em 1857. Tiveram seis filhos: Rafael, João, Antônio, Brasílico, Gertrudes e Heitor, os dois últimos falecidos na infância.

Domitila, sempre lembrada por seu caso de amor com Pedro I, é esquecida quanto ao seu envolvimento nas questões nacionais. Na corte, doara, como “brasileira, e brasileira paulista”, grande quantia à Guerra da Cisplatina (1825-1828). Quarenta anos depois, durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), abrigou em sua fazenda a tropa que marchava para Mato Grosso, presenteando soldados e oficiais com dinheiro. Extremamente caridosa, foi uma das pessoas que ajudou a Santa Casa de Misericórdia a ter a sua primeira sede própria. Doou dinheiro para a construção da capela do Cemitério da Consolação e de uma casa para dispensário médico. Ninguém concorria em São Paulo com a Marquesa na comemoração do 7 de setembro e do 11 de agosto, dia da implantação dos cursos jurídicos no Brasil. Protetora dos estudantes de Direito, cuidava destes quando adoeciam e recebia-os para refeições e festas em seu palacete na antiga rua do Carmo, atual Roberto Simonsen. Em seus salões, declamou o estudante e poeta Álvares de Azevedo e tocou, entre outros, o pianista Emilio Correa do Lago. Sob os tetos do palacete do Carmo, e às vistas da respeitável matrona, centenas de casamentos entre moças paulistas e futuros bacharéis foram arranjados.

Devido a uma enterocolite aguda, a Marquesa de Santos faleceu em seu solar às 16h30 do dia 3 de novembro de 1867, às vésperas de completar 70 anos. Rompendo os padrões de comportamento que se esperava de uma mulher de seu tempo, ao transgredir, chocou a sociedade. Ao mostrar sua força, fez-se respeitada. Seu enterro foi seguido pela elite cultural, econômica e política paulista, com a presença do presidente da província, Saldanha Marinho.

O total dos bens inventariados da Marquesa chegou a 1.308:848$600 (um mil, trezentos e oito contos, oitocentos e quarenta e oito mil e seiscentos réis), que daria, atualmente, cerca de cento e vinte milhões de reais. Deixou em testamento dinheiro para a compra das alfaias litúrgicas da capela do cemitério municipal e esmolas para a “pobreza envergonhada”. Está sepultada no Cemitério da Consolação, onde acabou por se transformar em santa popular. Em seu túmulo, sempre bem cuidado devido a uma promessa feita a ela pelo sanfoneiro Mario Zan, podem ser vistas algumas placas de graças alcançadas.

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Paulo Rezzutti