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Da Seção de Arte ao Prêmio Aquisição – A Gênese do Gabinete do Desenho

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A primeira exposição deste Gabinete do Desenho, que agora se inaugura, são duas. Estão, portanto, interligadas. Uma, a do piso térreo, composta exclusivamente por obras extraídas da coleção do município; outra, localizada no andar superior, constituída por obras tomadas de empréstimo, em sua maioria inéditas. A primeira refere-se ao impressionante, por substantivo, acúmulo de expressões concernentes aos contextos históricos em que foram produzidas, grandemente responsáveis pelas espessuras e qualidades desses contextos. A segunda, indissoluvelmente ligada a essa coleção, diz respeito ao futuro que se quer garantir à nova instituição, um futuro ligado ao alargamento que o conceito de desenho vem tendo, especialmente quando ele é identificado como materialização de ideias.

uma introdução

Diversamente do que faz crer o conjunto da historiografia sobre o tema, o primeiro museu de arte moderna do país ou, ao menos, nossa primeira instituição museológica a se voltar para a arte moderna não foram os Museus de Arte Moderna de São Paulo ou do Rio de Janeiro, criados na passagem de 1948 para 1949, nem mesmo o Museu de Arte de São Paulo – MASP, fundado em 1947. Antes de todos eles, estabelecida em 1945, a primeira instituição voltada à aquisição, conservação, estudo e apresentação de arte moderna foi a Seção de Arte da Biblioteca Municipal de São Paulo (hoje Biblioteca Mário de Andrade), assim denominada pelo seu então diretor, o crítico de literatura e artes visuais Sérgio Milliet. Intelectual de fina extração, atuante em frentes diversas, Milliet compreendeu que o melhor a fazer, mais coerente com a natureza de setor de uma biblioteca, e plausível frente aos naturalmente parcos recursos financeiros disponíveis, seria – não obstante a coleção preexistente incluir pinturas e esculturas, uma amplitude que, diga-se de passagem, ela jamais perderia –privilegiar a aquisição de obras que faziam uso do papel como suporte: desenhos, aquarelas e gravuras em técnicas variadas, incluindo livros ilustrados com gravações originais, de autoria de artistas nacionais e estrangeiros.

A intimidade de Sérgio Milliet com os modernistas nacionais, seu conhecimento do que naquela altura se fazia na Europa, levou à constituição de um acervo respeitável pela qualidade e ousadia. De fato, poucos pensariam em combinar a aquisição de álbuns de artistas como o Jazz de Henri Matisse e Le Cirque de Fernand Léger, fac-símiles de cadernos de desenhos de Picasso, com a assinatura de revistas como Verve e Derrière le Miroir, publicadas respectivamente por Tériade (Stratis Eleftheriades) e Aimé Maeght, duas aventuras editoriais singulares pela profusão de litografias e reproduções de obras dos mais importantes artistas da assim chamada Escola de Paris.

A história dessa coleção prosseguiu com as idas e vindas próprias ao estabelecimento das instituições culturais do nosso país, através do trabalho por vezes voluntarista de profissionais como a crítica Maria Eugênia Franco, que, depois de haver sido uma das principais interlocutoras de Sérgio Milliet, assumiu, em meados da década de 1970, a direção do Departamento de Documentação e Informação Artística – IDART, onde comandou a minuciosa catalogação e estudo de um acervo disperso por várias repartições e secretarias.

O deslocamento da coleção para o Centro Cultural São Paulo, criado em 1982, centralização benéfica em vários aspectos, praticamente coincidiu com um abrupto aumento da sua parcela de obras em papel, sobretudo graças à doação por parte de Walter Zanini, então curador da Bienal de São Paulo em sua edição de 1983, dos inúmeros exemplares de arte postal. Envelopes, cartas, cartões-postais e todo um conjunto de peças gráficas que havia sido remetido à Bienal por artistas dos mais diversos países, com vistas a participar do segmento de Arte Postal daquela edição, sob a curadoria do artista Julio Plaza.

O salto seguinte, ocorrido durante a gestão de Marilena Chauí à frente da Secretaria do Município da Cultura, deu-se com a nomeação da crítica e curadora Sônia Salztein como responsável pela Divisão de Artes Plásticas e por seu Programa de Exposições dedicado a artistas contemporâneos, o que reverteu em novas compras e doações de desenhos, gravuras, pinturas, esculturas, instalações, vídeos e fotografias. Esse processo ganhou novo alento em 2001, quando foi instaurado o Prêmio Aquisição, ligado ao Programa Anual de Exposições do Centro Cultural São Paulo.

Gabinete do Desenho do Museu da Cidade de São Paulo

Sediado na Chácara Lane, um significativo edifício devidamente tombado pelo Patrimônio Histórico e que já abrigou o Arquivo Municipal, o Gabinete do Desenho nasce de um recorte destinado a iluminar os desenhos da Coleção de Arte do Município de São Paulo, uma ação que em certa medida retoma, em ângulo atualizado, a já mencionada orientação dada por Sérgio Milliet, quando resolveu privilegiar as obras em papel – desenhos e suas variantes, como cadernos preparatórios, estudos, projetos, esboços, além de expressões congêneres, gravuras, aquarelas, colagens.

Essa decisão pauta-se em critérios variados, a começar pela disparidade em termos de qualidade e quantidade existente entre as obras desse âmbito e o restante da coleção. Conquanto haja pinturas e esculturas, além de obras que não se enquadram sob essas nomenclaturas clássicas, de grande valor estético, elas, com a possível exceção da produção contemporânea que nos dois últimos decênios vem sendo regularmente incorporada, não chegam a compor um conjunto significativo.

Considerando a amplitude temporal coberta pelo todo da coleção, cujo ponto de partida remonta ao século XIX, o que se tem fora do âmbito do desenho é um conjunto irregular e cujas múltiplas lacunas, ainda mais agora, quando o mercado brasileiro de obras de arte vem conhecendo um aumento de preços cada vez maior, tendência ascendente dificilmente irreversível, só serão suprimidas mediante ações de grande envergadura.

E se é fato que a produção contemporânea em suas várias vertentes vem sendo sistematicamente absorvida, não se pode dizer que essa perspectiva seja original e, portanto, diversa do que vem sendo adquirido por outras instituições públicas que compartilham desse mesmo interesse, como o Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAMSP, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC USP, e a Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Todo esse raciocínio, escorado na percepção da alta qualidade desse segmento particular da coleção do município, levou-nos à conclusão de que o melhor a fazer, mais original, dado que não existe no território nacional e, de resto, em poucos lugares no mundo uma instituição exclusivamente ocupada com o desenho, seria concentrar-se nessa linguagem, detendo-se em sua conservação, incorporação, análise e difusão. Uma missão oportuna pelo teor formativo e até mais urgente, posto que se contrapõe ao indisfarçável interesse da maior parte de nossas instituições, no que são acompanhadas pelo mercado, por obras cuja força estética rima com aparência espetacular. Objetivos que ganham contornos proporcionais com a amplitude e complexidade que o território do desenho vem assumindo.

desenho = ideia

Nos quadros das manifestações artísticas, o desenho, visto sob um ângulo simplificado, mas sem descartar sua heterogeneidade constitutiva, de uma folha de papel totalmente preenchida àquela maculada por um risco de lápis, resultante de um gesto mínimo, é habitualmente identificado e valorizado a partir de dois vetores:

1º – manifestação de um desejo, como no caso do projeto de uma obra de arquitetura, uma coreografia, uma escultura de grandes dimensões, etc;
2º – maneira de perceber o mundo, como acontece nas obras de extração realista, os desenhos de observação, mapas cartográficos, etc.

Ainda que se possa registrar essa distinção entre as formas de nomear essa ação atávica, imemorial, diferença que, como se viu, conflui para dois vetores, cabe ressaltar sua coexistência e interação fecundas, privilegiando um e outro vetor, em qualquer caso contribuindo para o esgarçamento das fronteiras entre ambos.

Ao invés de se valorizar exclusivamente os desenhos “mais bem acabados”, os desenhos como um fim em si mesmo, ao longo das últimas décadas, sobretudo a partir das correntes artísticas que se detiveram sobre o valor do processo, passou-se a admitir como importante toda a forma do desenho, por inacabado que ele se apresente. Assim, além de cadernos e folhas esparsas, qualquer superfície capaz de conter esboços, debuxos, bosquejos, croquis, garatujas, embriões de obras, ideias em estado larvar, passou a ser admitida como expressões legítimas do pensamento, pontos de partida, por mais insuspeitados que pareçam ser, de obras variadas, de arte ou não.

Há que se considerar que todo mundo desenha, não só os artistas, sejam eles visuais ou não. Arquitetos e designers fazem de esboços a projetos de objetos grandemente variados, de habitações a cenografias, de cartazes a mobiliário; cineastas, como quadrinistas, realizam storyboards; músicos e coreógrafos elaboram notações e marcações; e poetas e escritores desenham a estrutura de um romance, quando pensam o modo como ocupam a folha virgem, e quando consideram as fontes tipográficas a serem utilizadas, até o formato da mancha do texto. Indo mais além: matemáticos desenham, químicos, físicos e engenheiros idem, como também médicos, biólogos, etc. Cifras, notas, sinais, marcas, todos esses grafismos também se encaixam na família do desenho, dessa espécie de sismógrafo a um só tempo ativado pela intuição e razão, isso sem deixar de incluir a parcela inefável que compete ao sentimento.

Mais que um gabinete de papel, que é como comumente se nomeia um conjunto de arquivos, vitrines e mobiliário afim, projetado para armazenar e apresentar ao público obras de arte realizadas sobre papel, o Gabinete do Desenho propõe-se a tratar esse meio de modo compatível com sua natureza de elevado produto intelectual. Nasce com a vocação de ser um arquivo de ideias, um centro de pesquisa, difusão e reflexão, vale dizer, um ponto de encontro animado por palestras, debates, cursos, seminários e encontros, além de produtor de documentos teóricos a edições fac-similares, reproduções de desenhos em soluções variadas, sempre com a finalidade de defender o desenho em acepção ampla, sublinhando-o como modalidade de raciocínio, centelha do processo criativo, território de fundação do futuro e descortinamento de regiões ensombrecidas do ser.

Essa compreensão, convém reforçar, ultrapassa de longe o senso comum, sacramentada pelo mercado de arte, segundo o qual o desenho seria uma forma de arte menor, sem a nobreza material das demais manifestações plásticas, com baixo valor comercial. Um ponto de vista que adquire contornos ainda mais desalentadores quando aplicado às formas acima relacionadas. Cadernos, rascunhos e toda a infinita miuçalha que serve de eventual suporte para uma nota, um comentário ou uma cifra mental, são invariavelmente condenados ao esquecimento e descarte, especialmente quando não se enquadram no âmbito das artes visuais. Ainda no caso deste último, no Brasil, como fica claro nos escopos de atuação da imensa maioria das instituições museológicas e, mais ainda, entre os herdeiros de espólios quase sempre exclusivamente interessados em sua dimensão comercial. Nesse processo generalizado por todos os campos do pensamento, acervos inteiros são destruídos e com eles um patrimônio precioso da história das ideias; esfuma-se a visão vertical dos processos de criação, a possibilidade de se rastrear a gênese de obras existentes e as incursões por territórios ainda não desbravados.

sobre a exposição

De um dos esboços de A Negra, expressão do melhor da poética de Tarsila do Amaral, ao neon Nós, de Carmela Gross, de uma paisagem de Rugendas aos planos coloridos, escandidos e entrelaçados de Leda Catunda, da irregularidade do formato da peça de Joan Miró ao texto estampado sobre o autorretrato de Lenora de Barros, do intimismo urbano de Evandro Carlos Jardim à extroversão possível encontrada pelos mail-artistas, do emaranhado de linhas de Darel aos carimbos repetidos de León Ferrari, das vividas crônicas de Di Cavalcanti à materialidade diversificada de Nuno Ramos, os desenhos apresentados nesta exposição, fixados nas paredes, acomodados nas gavetas das mapotecas, dispostos em vitrines, demonstram a amplitude desse território, seu compromisso que pode variar da observação atenta ao enigma, da razão ao impulso emocional, e que de todo modo sempre estará referido ao campo da invenção e, por extensão, da própria sensibilidade do ser.

Agnaldo Farias
Curador


Chácara Lane/Gabinete do Desenho
Rua da Consolação, 1024 - São Paulo, SP
Fone 11 3129 3361

Aberto de terça a domingo, das 9 às 17h
Visita orientada. Entrada franca.