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Rubens Mano: Corte e Retenção

Bloqueio como conexão
Guilherme Wisnik

No primeiro semestre de 2012 o artista Rubens Mano presenciou e documentou a ação comandada pela prefeitura que destruiu grande parte das caixas de madeira usadas para o transporte de hortifrutis no Ceasa, em São Paulo. Caixas que, produzidas e vendidas de maneira informal, empilhavam-se de modo instável e vertiginoso nas calçadas próximas ao grande mercado. Surgem assim, desse episódio, interessantes percepções acerca das dinâmicas visíveis e invisíveis presentes na produção do espaço físico e social da metrópole: 1) a crescente especulação imobiliária, que transforma vastas áreas da cidade e empurra os serviços de apoio, ainda artesanais, para a informalidade, isto é, para a ilegalidade; 2) contenedores vazios, as caixas são tanto metáforas da mercadoria circulante quanto módulos estruturais em si, isto é, símbolos de uma racionalidade construtiva que vai também se tornando recessiva nas dinâmicas imateriais da cidade contemporânea.

Apropriando-se poeticamente dessas caixas como ready-mades urbanos, Rubens Mano cria uma grande montanha que obstaculiza a passagem. E se as pilhas originais, tal como vemos nas fotos, se escoravam em espaços estreitos de calçadas contra muros descascados, envolvendo postes e árvores, no Beco do Pinto o artista cria um volume profundo e impenetrável, e autônomo enquanto forma geométrica e cargas portantes. Assim, enquanto o corte no primeiro caso está associado à destruição e remoção das caixas, no segundo ele reaparece como interrupção de um fluxo através das mesmas caixas, em uma espécie de retorno simbólico do reprimido, para falar em termos psicanalíticos. Sendo o trabalho de arte uma ação física real, é como se a dinâmica de transformação de uma parte da cidade ativasse involuntariamente processos em outros locais, reaparecendo então como enigma, e sem deixar de trazer também, nela inscrita, uma componente de violência surda.

Quase no pé do antigo Colégio dos Jesuítas, o Beco do Pinto é uma das vielas íngremes construídas para conectar a colina histórica da cidade à baixada do rio Tamaduateí, onde se situa, significativamente, a primeira Zona Cerealista de São Paulo. Fechado por um portão, o Beco já está hoje interditado ao livre trânsito entre essas áreas, deixando de ser um espaço público. Assim, ao edificar uma rigorosa trama de caixas entre a antiga Casa no 1 da cidade e o Solar da Marquesa de Santos, Rubens Mano conecta discursivamente elos invisíveis da metrópole, ainda que na forma física de uma obstrução. Um bloqueio que também funciona como elemento de conexão.

Exposição de 15 de dezembro de 2012 a 26 de maio de 2013*

(*) A Casa da Imagem estará fechada à visitação entre 22/dezembro e 8/janeiro


Blockade as connection
Guilherme Wisnik

In the first half of 2012, artist Rubens Mano witnessed and documented the action taken by São Paulo City Hall to destroy the majority of the wooden boxes used to transport produce in Ceasa (São Paulo’s main fruit and vegetable market). Boxes which, made and sold informally, stand in precarious, disordered piles on the sidewalks around the huge market. What arose from these episodes then were interesting perceptions on the visible and invisible dynamics present in the production of physical and social space in the city:1) the growing property speculation, which transforms vast areas of the city and pushing still artisanal support services towards informality, which is to say towards illegality; 2) empty containers, the boxes are as much a metaphor for the transported merchandise as structural modules in themselves, that is, symbols of a constructive rationality which is also becoming recessive in the nonmaterial dynamics of the contemporary city.

Appropriating these boxes poetically as urban ready-mades, Rubens
Mano creates a large mountain that obstructs the way. And  if these original piles, as we can see in the photos, lean against peeling walls, encircling posts and trees in the narrow sidewalk space, in Beco do Pinto the artist creates a deep and impenetrable volume, also autonomous both in its geometrical form and its sustaining forces. Thus, while the cut in the first instance is related to the destruction and removal of the boxes, in the second, it reappears as an interruption of the flow of the same boxes, in a kind of symbolic return from a state of repression, to use psychoanalytical terms. As the work of art is a real physical act, it is as if the dynamic of the transformation of a part of the city were involuntarily activating processes in other locations, thus reappearing as an enigma, and not failing to bring also, inscribed in it, a component of inexorable violence.

Running almost up to the Jesuit College, Beco do Pinto is one of the steep laneways constructed to connect the historical city hill to the lowlands of the Tamaduateí River, which is, interestingly, home to the first Zona Cerealista (cereal producing zone) in São Paulo. Closed off  by a gate which today impedes free transit between these areas, the Beco is no longer a public space. Thus, on building a rigorous network of boxes between the city’s old House No 1and the former residence known as Solar da Marquesa de Santos, Rubens Mano discursively connects invisible city links, albeit in the physical form of an obstruction. A blockade that also works as an element of connection.


Casa da Imagem de São Paulo
Rua Roberto Simonsen, 136-B
CEP 01017-020 - Sé – São Paulo SP
Telefone 11 3106-5122

Visitação de Terça a domingo, das 9h às 17h
Consulta ao acervo de terça a sexta-feira das 9h às 17h

Entrada franca


Contato.casai@prefeitura.sp.gov.br