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Meu Chapéu tá la no alto do céu

Quase ao alcance das mãos
Rodrigo Naves

Na mitologia grega, Anteu, filho de Posêidon e Gaia, era um gigante que extraía sua força descomunal do contato com a Terra/Gaia, sua mãe. Tão logo deixasse de tocá-la, via seu vigor reduzir-se. E foi assim, alçando-o do chão, que Hércules o matou. Em muitos dos seus trabalhos, Ana Paula Oliveira realiza um procedimento oposto. A artista costuma usar estacas ou cunhas de madeira para elevar ou sustentar coisas e animais e, desse modo, reforçar sua presença. Podem ser os peixes de Instável (2012), a borracha de Iminente (2009) ou o estrado de Diadema (2003). Pouco importa. A inteligência das obras consiste justamente em pô-los numa situação estranha à sua posição natural e com isso torná-los mais visíveis, potentes e perigosos. E o interessante é que, a cada novo trabalho, Ana Paula consegue chegar a significados diversos, ainda que seus procedimentos não mudem radicalmente.

A atual instalação, Meu chapéu ta la no alto do céu, tem algo dos quintais da infância e por isso as jabuticabeiras precisam ser alçadas, com raízes e tudo. A mudança de escala das árvores foi necessária para nos devolver o tamanho que tínhamos no tempo em que um pé de fruta reparava todas as injustiças do mundo. E o Beco do Pinto, bem no centro desta cidade de poucos quintais, foi a alternativa que lhe restou.

Mas por que alçá-las de modo meio rude, usando dormentes já carcomidos pelo tempo, desproporcionais ao peso que sustentam? Acredito que, em parte, essa escolha se explica literalmente: erguidas de maneira algo brutal pelos dormentes, as jabuticabeiras se mostram desterradas. As alegrias da infância não podem ser mais resgatadas. Resta apenas restituir-lhes uma imponência perdida. Distribuídas pelos diversos patamares da ladeira, as árvores parecem cumprir um ritual religioso: pagar a promessa que leva os fiéis a lanhar os joelhos em nome da salvação. E então a leveza da infância se vê transformada na triste religiosidade das cidades do interior.

Mas não é da arte de Ana Paula reclamar das mazelas do mundo. Ao contrário. Seu trabalho fala da possibilidade de revigorar antigos significados, de reconquistar vitalidade para aquilo que o hábito velou. E então as bolsas com água, das quais correm os tubos que irrigam as jabuticabeiras, restituem às velhas rezadeiras uma vitalidade nova. Cedendo à lei da gravidade, a água inverte a direção da ladeira, transforma-a em descida e leveza. E, numa fração de segundo, as jabuticabeiras já ensaiam os passos de uma dança que as torna simultaneamente feiticeiras e dançarinas, as galhadas estendidas para o alto, livres momentaneamente das raízes que as fixam ao chão.

Eu também já tive quintal, e foi nele que realizei minhas poucas façanhas. Com essa obra, Ana Paula Oliveira foi bem mais longe. À doçura generosa da natureza vêm se misturar fantasias que não sabíamos nomear e que pertenciam a uma outra natureza, talvez menos gentil que a das árvores: calores desconhecidos, desejos sem objeto, tardes quentes de preguiça e inquietação. Dançarinas e feiticeiras.

Jabuticabeiras têm algo da Cocanha, o país imaginário da fartura e do ócio. Colados ao tronco, ao alcance da mão, centenas de frutos nos garantem que podemos ter calma, pois há alimento para todos. E então, num passe de mágica, tudo se distancia: árvores, bonança, descanso. Apenas para reluzirem como nunca reluziram antes.*

* Este artigo é dedicado a minha amiga Júlia Abs, que me ensinou a ver a dança.


Nearly at Hand’s Reach
Rodrigo Naves

In Greek mythology, Antaeus, the son of Poseidon and Gaia, was a giant who obtained his extraordinary strength from his contact with Earth/Gaia, his mother. Whenever he lost contact with her, his strength waned. And this is how Hercules killed him – by lifting him up from the ground. In many of her works, Ana Paula Oliveira carries out an opposite procedure. The artist often uses wooden stakes or wedges to hold up things and animals, thus reinforcing their presence. Whether it be fish, as in Instável [Unstable] (2012), a mass of rubber, as in Iminente [Imminent] (2009) or a platform, as in Diadema (2003), their precise nature doesn’t matter. The intelligence of her artworks consists in their being placed in a situation that is strange in comparison to their natural position, in this way making them more visible, powerful and dangerous. And it is interesting how with each new work Ana Paula manages to arrive at new meanings, even if her procedures are not radically different.

Her current installation Meu chapéu tá no alto do céu [My Hat Is High in the Sky] involves something of the backyards of childhood, and this is why the jabuticaba trees need to be raised up, roots and all. The change in scale of the trees was necessary to return us to the size we had at the time when the fruit tree could repair all the injustices of the world. And the Beco do Pinto, right downtown in this city with few backyards, was the alternative available to her.

But why raise them up in a somewhat crude way, using stout wooden beams already partly eaten away by time, disproportional to the weight they support? I believe that this choice is partly explained literally: held up in a somewhat brutal way by the wooden beams, the jabuticaba trees are shown to be uprooted. The joys of childhood can no longer be recovered. One can only restore a lost grandness to them. Distributed among the various levels of the slope, the trees seem to fulfill a religious ritual: paying the promise that leads the faithful to bruise their knees in the name of salvation. And therefore the lightness of childhood is transformed into the sad religiosity of smaller cities in Brazil’s interior.

But Ana Paula’s art does not complain about the world’s afflictions. On the contrary. Her work speaks of the possibility of reinvigorating old meanings, of recapturing vitality for that which habit has concealed. And therefore the bags of water, from which tubes extend to irrigate the jabuticaba trees, restore new vitality to the old faith healers. Yielding to the law of gravity, the water inverts the direction of the slope, transforming it into descent and lightness. And, in a fraction of a second the jabuticaba trees already take the first steps of a dance that makes them simultaneously sorceresses and dancers, their branches extended upward, momentarily free from the roots that hold them to the ground.

I also once had a backyard, and it was there that I achieved my first exploits. With this work, Ana Paula Oliveira went much further. Here, the generous sweetness of nature is blended with fantasies we do not know how to name, and which belong to another nature, perhaps more gentle than that of the trees: unknown warmths, desires without an object, hot afternoons of laziness and uneasiness. Dancers and sorceresses.

Jabuticaba trees have something to do with Cockaigne, the imaginary country of abundance and leisure. Stuck to the trunk, at hand’s reach, hundreds of fruits ensure us that we can remain calm, because there is food for everyone. And then, magically, everything moves into the distance: trees, tranquility, rest. Only to shine like they have never shown before.*

* This article is dedicated to my friend Júlia Abs, who taught me how to see dance.

Serviço: Beco do Pinto
Funcionamento:
terça a domingo, das 9h às 17h
Entrada gratuita
   
Endereço:
Rua Roberto Simonsen, s/nº - Centro
CEP 01017-020 - S Paulo-SP
Metrô Sé
tel 11 3106-5122  (Casa da Imagem)


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