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A Cidade desaparecida de Militão Augusto de Azevedo

Abertura: sábado 22 de setembro de 2012 às 11:00h

Nos primeiros anos de 1860, em São Paulo moravam cerca de 30 mil pessoas em casas de taipa e cobertas com telha batida, alinhadas em ruas desordenadas pelas quais tropas se deslocavam cruzando os largos em direção às estradas. Nesse período, poucas nascentes forneciam água de boa qualidade e a população transitava nas ruas com potes para coleta nas fontes. O tempo fluía brandamente: percorria-se a pé de um extremo ao outro (Piques, Carmo ou Seminário) e a passagem das horas era assinalada pelos sinos. Não eram raros trajes cobrindo os rostos, e as janelas com treliças permitiam a observação discreta da rua. Passeios a lugares distantes, como o Brás ou a confluência dos Rios Tamanduateí e Tietê, duravam o dia todo.

Nesse cenário, por volta de 1862, vindo do Rio de Janeiro, Militão Augusto de Azevedo (1837-1905) estabeleceu-se em São Paulo e passou a trabalhar como assistente do estúdio Carneiro & Smith. Coube ao jovem carioca realizar a primeira documentação fotográfica da paisagem paulista, a mais rica descrição iconográfica produzida nesse período. Em 1875, adquiriu o estúdio que recebeu sucessivamente os nomes de Photographia Acadêmica e Photographia Americana. Neste último estabelecimento havia um caderno de atividades no qual miniaturas dos retratos dos clientes eram coladas ao lado do número da ordem de serviço, instrumento de controle que, no século seguinte, se transformou no mais importante inventário dos tipos sociais de sua época, revelando a diversidade de frequentadores e a composição da sociedade – escravos, comerciantes, estudantes, personalidades. A concorrência entre as casas de fotografia intensificava-se nesse momento, impulsionada pelos alunos da Academia de Direito, ávidos por recordações da fase estudantil. Era frequente a publicação de anúncios no Correio Paulistano oferecendo serviços fotográficos, entre os quais ressaltamos um que ilustra o prestígio do retrato. Assinado por Gaspar Antônio da Silva Guimarães, sócio do estúdio em que Militão trabalhava, o anúncio concedia generoso desconto aos voluntários da Guerra do Paraguai (1864-1870), que desejavam perpetuar sua fisionomia como lembrança aos mais próximos e queridos.

Ao término da Guerra as locomotivas da São Paulo Railway cruzavam as várzeas e a noção de progresso e modernidade ganhou impulso. Nas décadas seguintes, as técnicas construtivas europeias sobrepuseram-se às antigas construções, redesenhando o espaço urbano.

Apesar da intensa participação de Militão como retratista nesse período, o Photographia Americana encerra as atividades em 1887. Percebendo as marcas do tempo, o fotógrafo decide retornar aos pontos registrados na década de 1860, produzindo a sua segunda documentação das ruas. O resultado desse novo ensaio apontou modificações surpreendentes, como nos Largos da Assembleia e do Palácio. Surge nesse ano o Álbum Comparativo de Vistas da Cidade de São Paulo (1862-1887), relacionando as duas documentações, edição que marcou o final do percurso profissional de Militão, já aos 50 anos de idade.

Pouco restou desta cidade, exceto algumas igrejas (São Gonçalo, Convento da Luz), o Obelisco do Piques, o traçado das ruas, a memória dos viajantes e o ensaio fotográfico realizado por Militão Augusto de Azevedo há exatos 150 anos, cujas matrizes em negativo de vidro, reproduzidas por Aurélio Becherini em 1915, encontram-se preservadas no acervo da Casa da Imagem de São Paulo.


The vanished city of Militão Augusto de Azevedo

In the first years of the 1860s, about 30 thousand people lived in São Paulo in mud houses covered with clay tiles, lined up in meandering streets through which herds of cattle moved, crossing the urban plazas towards the roads. At this time, few springs provided good quality water, and the population walked around the streets with jars to collect water from the fountains. Time passed slowly: people walked from place to place (Piques, Carmo, or Seminário), and the passage of time was marked by bells. It was not rare to see people with veiled faces, and lattice windows enabled the discrete observation of the street. Outings to distant places, such as Brás or the confluence between the rivers Tamanduateí and Tietê, lasted all day. 

In this scenario, around 1862, coming from Rio de Janeiro, Militão Augusto de Azevedo (1837-1905) became established in São Paulo and began working as an assistant at the Carneiro & Smith studios. The Carioca young man was commissioned to make the first photographic documentation of the Paulista capital, the richest iconographic description produced at the time. In 1875, he bought the studio, which was successively named Photographia Acadêmica [Academic Photography] and Photographia Americana [American Photography]. In the latter, there was an activity log in which miniatures of the clients’ portraits were glued next to the corresponding service order numbers, a management tool that in the following century would become the most important inventory of the social types of that epoch, revealing the diversity of the studio’s customers and the composition of society – slaves, store owners, students, prominent figures. The competition between photography studios became more intense at that moment, driven by Law School students eager to collect mementos of their student days. Advertisements offering photographic services were often published in the Correio Paulistano [Paulistano Gazette], among which we highlight one that illustrates the prestige of portraits. Signed by Gaspar Antônio da Silva Guimarães, a partner at the studio where Militão worked, the ad offered a generous discount to volunteers of the Paraguayan War (1864-1870) who wished to perpetuate their physiognomy as a souvenir for their loved ones.

When the Paraguayan War ended, the São Paulo Railway locomotives crossed the leas, and the notions of progress and modernity gained momentum. In the following decades, European building techniques replaced the old constructions, redrawing the urban space.

In spite of Militão’s intense participation as a portraitist during this period, the Photographia Americana studio closed in 1887. Noticing the marks of time, the photographer decides to go back to the sites he had registered in the 1860s, producing his second documentation of the streets. The result of this new essay revealed remarkable changes, such as at the Assembleia and Palácio plazas. That year saw the publication of the Álbum Comparativo de São Paulo (1862-1887) [1862-1887 Comparative São Paulo Album], comparing the two essays, a publication that marked the end of Militão’s professional trajectory, at almost 50 years of age.

These street landscapes are witnesses of a vanished city, becoming essential for its imaginary recreation. Their legacy supported researchers of the city’s history in the last century, and now these landscapes are brought back to life through electronic media.

Little remains of this city, except for a few churches (São Gonçalo and the Luz Convent), Piques Obelisk, the outline of the streets, the travelers’ memoirs, and the photographic essay done by Militão Augusto de Azevedo exactly 150 years ago, whose glass negative matrixes, reproduced by Aurélio Becherini in 1915, have been preserved at the Casa da Imagem [Image Institute] collection in São Paulo.

Casa da Imagem de São Paulo
Rua Roberto Simonsen, 136-B
CEP 01017-020 - Sé – São Paulo SP
Telefone 11 3106-5122

Visitação de Terça a domingo, das 9h às 17h
Consulta ao acervo de terça a sexta-feira das 9h às 17h

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