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Maurício Ianês na Capela do Morumbi

O Museu da cidade de São Paulo em parceria com o 15° festival da cultura inglesa apresenta na Capela do Morumbi performance do artista Maurício Ianês.


Como falar sobre o que não pode ser dito

“Não sei expressar-me por palavras. O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio.”
“Eu sei criar o silêncio. É assim: ligo o rádio bem alto – então de súbito desligo. E assim capto o silêncio. Silêncio estrelar. O silêncio da lua muda. Pára tudo: criei o silêncio. No silêncio é que mais se ouvem os ruídos. Entre as marteladas eu ouvia o silêncio.”
Clarice Lispector¹

Não é por acaso que na série de objetos ”Sobre o silêncio“, desenvolvida em 2003 por Maurício Ianês, o que vemos é um relevo que sai direto da parede, sugerindo um grifo amarelo de destaque de texto, no qual o texto está oculto, e todo o espaço ao redor é transformado em entrelinhas. Ianês trabalha com o que está nas entrelinhas. Sua produção consiste em problematizar as lacunas da comunicação, evidenciando o silêncio que reside entre as palavras. Para o artista, nesse embate da comunicação entram em pauta importantes jogos de poder, questões de linguagem e semiótica, questões políticas e sociais e também, possivelmente até acima das questões anteriormente descritas, questões pessoais, emocionais e linguagens privadas.

O silêncio sempre ronda o trabalho de Ianês. Talvez porque seja a maneira mais honesta de se comunicar sem nos deixar cair nas ciladas da linguagem. Em “Untitled - silent area/ monologue area/ dialogue area”, de 2008, o artista adesiva no piso proposições para o público. Em uma delas se lê “silent area”. Com essa intervenção mínima o espaço é ativado e aquela área passa a ser percebida de outro modo. Na instalação “Um e Outro Silêncio”, de 2011, o ponto de partida é o texto da peça Ohio Impromtu do escritor, poeta e dramaturgo irlandês Samuel Beckett, que é reproduzido em acrílico espelhado pelo artista e está suspenso no espaço. As palavras do texto receberam um tachado, parecendo anuladas, como se tivessem sido faladas e caladas, e giram refletindo o espaço, encenando um aparecer/desaparecer constante.

Partindo também de Ohio Impromtu, onde para o artista a função comunicativa da linguagem é colocada em jogo e é desconstruída para revelar suas falhas e becos sem saída, a performance desenvolvida para a Capela do Morumbi circunda o que Maurício chama de discussões em torno da linguagem (sua dissolução, incapacidade representativa, potência poética através da desconstrução), explorando seu trajeto em direção ao silêncio, em busca de uma comunicação mais íntima e intensa, que vá além das palavras.

Situada em um ponto mais alto e isolado, a Capela observa o fluxo da cidade. Na construção de Gregori Warchavchik sobre ruínas do século 19, o artista encontrou elementos para potencializar questões recorrentes em seus trabalhos². Como nos intervalos entre palavras de uma frase, neste espaço o tempo parece se tornar estático, desempenhando uma espécie de incomunicabilidade com a cidade, consequência de seu isolamento da zona central e da estrutura da região, de longos quarteirões predominantemente residenciais, caracterizando-o como um lugar para acolhimento, conforto e reflexão.

Na performance, também chamada “Um e Outro Silêncio”, Ianês propõe uma ativação da Capela, retirando-a da quietude, não apenas como cenário, mas como agente de um acontecimento, sugerindo, através dessa ação, um fluxo de tempo diferenciado ao espaço. Assim, durante alguns minutos, o espaço vivencia uma experiência para, em seguida, resgatar a frequência original, e em oposição a este ruído momentâneo, criar um grande silêncio. A ação é encerrada, “Nada resta a dizer” ³. As palavras já não dão conta, resta apenas o silêncio.

Douglas de Freitas


  Um sopro de vida (pulsações) de Clarice Lispector, 1978.
² “A pesquisa de Maurício é movida por uma tríade de sistemas de representação – a linguagem, a arte e a religião”. Kiki Mazzucchelli, O verbo encarnado, texto criado para a publicação que acompanhava a exposição O mensageiro de Maurício Ianês.
³ “Nothing is left to tell” (“Nada resta a dizer” em tradução livre), Samuel Beckett, Ohio impromtu 1980.



Dia 11 de junho de 2011 às 15h

Capela do Morumbi
Avenida Morumbi, 5.387 - Morumbi, São Paulo
Fone: 11. 3772 - 4301

Entrada gratuita
Informações e agendamento de visitas orientadas
museudacidade@prefeitura.sp.gov.br