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Bandeiras e Bandeirantes: Mito e história

A exposição Bandeiras e bandeirantes: mito e história pretende lançar um olhar sobre o modo de vida dos paulistas nos séculos XVII e XVIII.

São Paulo do Piratininga foi fundada em 1554, no entorno do Colégio dos Jesuítas, na elevação entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú. Aos poucos, esta pequena povoação acabou conformando um grupo social com características específicas, definido em razão do seu distanciamento do litoral, seu afastamento da sociedade colonial mercantilizada do nordeste, da economia do açúcar.

Os “sampaulistas” ou “paulistas”, como foram chamados já no século XVII, praticavam um sertanismo de conquista, capturando indígenas para trabalhar nas suas plantações de trigo – condição da sua inserção mínima no mundo colonial. Seu dinamismo vinha da posição geográfica privilegiada, ponto de conexão e de abertura para os vastos espaços ainda inexplorados. Mais ainda, como mostrou o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a força deste bandeirante devassador dos sertões derivava do cultivo destes “instintos obscuros, nas inclinações muitas vezes grosseiras, nos interesses freqüentemente imorais”. Na falta de “uma comunidade civil e bem composta, segundo os moldes europeus”, esmeravam-se na “incorporação necessária de numerosos traços da vida do gentio”.

Tidos por alguns como rebeldes, insubordinados, meio-selvagens, ou, por outros, como leais vassalos, sempre dispostos a lutar pela monarquia portuguesa – os paulistas eram vistos já no mundo colonial como uma sociedade peculiar. Sua experiência nas viagens pelos matos, a incorporação de técnicas indígenas, ou mesmo de alguns de seus costumes e hábitos, tornaram nos especialistas numa arte da guerra no sertão. Reconhecidos por suas habilidades, os paulistas serão contratados, no século XVII, para lutar contra os indígenas irredentos nas Guerras dos Bárbaros e contra os escravos rebelados de Palmares. O padre Antonio Vieira os tinha pelos mais valentes soldados do Brasil, e para aquela guerra [a guerra contra os indígenas] os melhores do mundo”.

A historiografia, de maneira geral, tem apontado a bandeira como uma forma característica da organização militar que estruturou a sociedade paulista no século XVII. As bandeiras teriam moldado um modo de vida (o “banderismo” ou o “bandeirantismo”) e construído um personagem histórico (o “bandeirante”).

No século XIX e XX, a historiografia de São Paulo fez eco de uma mistificação que colocava os “sampaulistas” e o seu movimento expansionista para o sertão neste papel central de construtores do território nacional. O “bandeirante” tornou-se, então, um mito central para o imaginário paulista. Tal dimensão foi celebrada e amplificada por ocasião da comemoração do Centenário da Independência do Brasil (1922) e do IV Centenário da fundação de São Paulo (1954).

Marco desta mitografia é a escultura de Vitor Brecheret, o Monumento às Bandeiras. Concebido em 1920, com o apoio de alguns intelectuais modernistas, sobretudo o grupo mais regionalista comprometido com o fortalecimento do nativismo paulista, a escultura só seria realizada a partir de 1945 para ser inaugurada em 1953 e, por uma segunda vez, no festivo ano de 1954.

O Monumento de Brecheret é o ponto alto de um enorme esforço de construção de uma imagem do passado colonial paulista que desdobrava-se na publicação de livros e documentos, na produção de imagens, adereços, objetos utilitários, como jogos de porcelana, canecas e mesmo mobiliário.

Não foi pequeno o empenho de localizar e preservar, no espaço do que fora a São Paulo colonial, os remanescentes arquitetônicos de uma época pensada como heróica. Neste mesmo contexto, a Casa do Bandeirante, como foi chamada este exemplar de uma casa rural setecentista remanescente no bairro do Butantã, seria inteiramente restaurada por iniciativa da Comissão do IV Centenário para tornar-se o símbolo do nativismo paulista: a casa desta “indomável raça de conquistadores”, “a torre de mensagem”, “o ultimo reduto da família paulista”, nas palavras do presidente da Comissão, o poeta Guilherme de Almeida.

A exposição Bandeiras e bandeirantes: mito e história pretende lançar um olhar sobre o modo de vida dos paulistas nos séculos XVII e XVIII, sobre as expedições e suas reais dimensões, e sobre o mito que se construiu em torno deste passado, com suas conseqüências no campo da memória coletiva e das manifestações culturais e artísticas.

PEDRO PUNTONI
Curador


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Data de abertura: 31 de julho de 2010 às 11h

Casa do Bandeirante
Pça Monteiro Lobato, s/n° - Butantã, São Paulo, SP
Fone 11 3031 0920
Aberto de terça a domingo, das 9 às 17h
Visita orientada, entrada franca