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Guerra dos Emboabas - 300 anos depois

"A memória coletiva e a sua forma científica, a história, aplicam-se a dois tipos e materiais: os documentos e os monumentos. De fato, o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada quer pelas forças que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa, os historiadores".
(Jacques Le Goff)


Evento histórico de difícil estudo, devido tanto à escassez de documentos quanto à falta de monumentos que nos transmitam sua memória, a Guerra dos Emboabas permanece na memória de mineiros e paulistas como um marco divisor da história desses estados. Para os paulistas, ela significou uma importante derrota política, que redundou na perda da jurisdição sobre o território das minas, descoberto e desbravado pelos bandeirantes vindos do planalto do Piratininga. Derrotados nas Minas dos Cataguás, significativa parte dos paulistas voltou para São Paulo, enquanto outra avançou para Goiás e Mato Grosso numa tentativa de retomar a exploração mineral em território não tão disputado. Essa "marcha para o oeste", para regiões cujas jazidas eram muito mais pobres e superficiais do que as das Minas Gerais, marcam o início da decadência do movimento bandeirante e o consequente empobrecimento da capitania de São Paulo.

Para Minas Gerais, o conflito simboliza a fundação da entidade política que veio a ter esse nome, já que, no início da disputa paulistas versus emboabas, a capitania do Rio de Janeiro englobava ambos os territórios: o planalto do Piratininga, onde está situada a então vila e hoje cidade de São Paulo, e a parte do Brasil que veio a ser conhecida com o nome de Minas Gerais. Como resultado direto das disputas entre os dois partidos, foi criada, em nove de novembro de 1709, a capitania de São Paulo e Minas do Ouro, posteriormente, em 1720, desmembrada em duas outras - São Paulo e Minas Gerais. Destarte, a Guerra dos Emboabas pode ser considerada como o evento fundador de Minas Gerais.

No bojo desse evento, tivemos, também, uma mudança radical na atitude da Coroa Portuguesa em relação à sua colônia. A comprovação da existência de ouro em grande quantidade no interior do Brasil e do risco de Portugal perder o controle das jazidas para colonos tão pouco confiáveis como os insubmissos bandeirantes paulistas mostraram à metrópole a necessidade de se implantar, ou mesmo de se impor, uma estrutura de governo adequada naquele interior distante, para que se pudesse garantir a posse da região e consequente cobrança e envio dos impostos para Lisboa. Tal intenção teve sucesso, mesmo com percalços como a Sedição de Vila Rica e a Inconfidência Mineira, e o ouro de Minas Gerais viabilizou e enriqueceu Portugal. Enviado para a Inglaterra para pagar as importações portuguesas, ajudou a financiar a Revolução Industrial naquele país.

Em Minas Gerais, tivemos uma colonização com características bem originais, que diferenciaram essa capitania das demais regiões das Américas. Aqui se desenvolveu a única estrutura colonial de base urbana acontecida no nosso continente, com o tão bem conhecido e decantado florescimento artístico-cultural que nos legou as belíssimas "cidades do ouro", onde circularam e trabalharam artistas do porte de Aleijadinho, Mestre Ataíde, Lobo de Mesquita e dos poetas da Inconfidência.

Entretanto, se a memória e a história da fase consolidada da Minas Colonial e de sua requintada cultura urbana são bem conhecidas e estão documentadas pelos muitos documentos e maravilhosos monumentos ainda existentes, o momento imediatamente anterior, o do desbravamento da região, do estabelecimento e fundação de seus arraiais e vilas e dos conflitos que aqui se desenrolaram, está em situação exatamente oposta. Não temos nenhum documento visual desse período inicial, que vai da saída da Bandeira de Fernão Dias de São Paulo, em 1674, até a deposição de armas por Manuel Nunes Viana perante o emissário da Coroa Portuguesa, Antonio de Albuquerque, em 1709.

Tal carência pode ser explicada pela precariedade das condições em que viviam esses pioneiros e pela rusticidade da maioria deles, homens de ação que, em grande parte, não sabiam ler nem escrever, e que, pelo lado dos paulistas, falavam uma mistura linguística composta de vocabulário tupi com gramática portuguesa. Por isso, pela parcimônia do legado documental e quase inexistência de monumentos de época que demonstrem sua maneira de viver, pela total ausência de imagens que nos dêem ideia de seus equipamentos, hábitos e, até mesmo, de seu aspecto físico, não podemos senão conjecturar como eram e como viviam nossos antepassados. Verificou-se, então, ser impossível elaborar uma pesquisa iconográfica baseada em documentos da época, para que esta exposição contivesse imagens contemporâneas dos fundadores de Minas, das paisagens, das pessoas e de seus hábitos.

Para compor esta exposição comemorativa de seus feitos se fez necessário, portanto, suprir as imensas lacunas com imaginação e liberdade poética. Para isso, foram pesquisados e utilizados roteiros e mapas de diversos períodos, anteriores e posteriores ao conflito, que podem nos dar uma ideia dos caminhos percorridos por nossos personagens. Também foram usadas imagens de autores do século XIX, como Debret, Rugendas e Thomas Ender, que retrataram um país cronologicamente mais próximo de nós, mas visualmente mais compatível com as paisagens em que viveram esses bandeirantes e emboabas. A essas imagens dos viajantes do século XIX acrescentamos produções de artistas atuais, que, com muito talento e capacidade criadora, nos transportam ao passado. Julia Bianchi criou as representações dos episódios principais do Conflito, das armas e equipamentos do período em foco. José Octavio Cavalcanti cedeu seus desenhos de construções da Minas Colonial, e Pedro David fotografou as paisagens onde, há 300 anos, se deram os principais episódios.

LEONARDO JOSÉ MAGALHÃES GOMES
Curador da exposição

Clique aqui
para ler o texto de Adriana Romeiro sobre a exposição


Casa do Bandeirante

Pça. Monteiro Lobato, s/nº - Butantã, São Paulo, SP
Fone 11 3031 0920
Aberto de terça a domingo, das 9 às 17h.
Visita orientada. Entrada franca.


Paralelamente à exposição acontece dia 09/11/2009 um ciclo de palestras no instituto Itaú Cultural.

Programação:
10:30h – abertura | Leonardo José Magalhães Gomes
Curador da exposição

11:00h – 12:00h | John Manuel Monteiro (UNICAMP)
“Paulistas e carijós no caminho das Minas: sertanismo e identidade”

14:00h – 15:00h | Adriana Romeiro (UFMG)
“Da periferia ao centro: a Guerra dos Emboabas na geopolítica do Império português”

15:00h – 16:30h | Debate

15:30h – 16:30h | Laura de Mello e Souza (USP)
“Governo, costume e sociedade”

16:30h – 17:00h | Debate

17:00h – 17:30h | Café

17:30h – 18:30h | João Antônio de Paula (UFMG)
“História e cultura em Minas Gerais”

18:30h – 19:00h | Debate

19:00h | Lançamento do livro de Adriana Romeiro
“Paulistas e emboabas no coração das Minas” Editora UFMG