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Lux, de Laura Vinci, na Capela do Morumbi

O murmúrio de um segredo  (por Luisa Duarte)
“Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia; porém nosso dever é edificar como se fosse pedra a areia...”.  Jorge Luís Borges.

Lidar com estados fugidios, como a areia que escorre por entre os dedos, é do que se ocupa Laura Vinci em sua obra. Esta doa visibilidade para passagens do tempo, nos fazendo ver aquilo que sabemos que existe, mas que por estar em permanente fluxo, fica somente como um saber abstrato, carente de materialidade. Sem estancar, paralisar, mas sim tendo a sutil capacidade de apreender delicadamente o que passa, Laura nos dá olhos para ver o que está em permanente transformação. A areia que se acumulava na Máquina do mundo doava imanência para o passar das horas – sendo que estas sofriam as intervenções do ambiente, perdendo sua natureza linear. Em Warm White, resistores elétricos em bacias com água criavam uma escultura feita do que é sólido, mas também do que se desmancha no ar. O vapor criado pelo encontro do líquido com o calor se misturava ao espaço, dando a ver o vazio sob um véu tênue. Operações dessa natureza fazem da obra de Laura uma espécie de alquimia a partir dos diversos estados da matéria. Em Lux, instalação realizada na Capela do Morumbi, esse gesto a um só tempo alquímico e escultórico também entra em cena. O que se vê é um conjunto de aproximadamente 500 peças de vidro, que ocupam de maneira concentrada o vão central da Capela, partindo desde o chão até o teto.  Para existir, o vidro passa por um processo no qual sofre transformações agudas, entre o líquido e o sólido, o quente e o frio. Sua solidez frágil, ao final, encerra uma promessa de desfazimento, a qualquer momento pode advir o fim. Aquilo que agora existe e logo ali pode não mais existir evoca um arco tensionado entre pólos opostos, entre a vida e a morte. Arco que remete à natureza do tempo, vidro que guarda, em si, o segredo do tempo. Em Lux, o tempo paira imóvel e silenciosamente. Note-se que, ao atravessar a nuvem translúcida de vidros, a luz natural que entra na Capela finda por ser incorporada à obra. Se em um trabalho anterior da artista, vidros conviviam com marcas de tiros, aqui eles surgem levemente alterados pela luz, luz que caminha no sentido oposto ao da brutalidade. Trata-se de delicadeza, afirmação de natureza vital. Ao ter como objeto principal de toda sua obra o tempo, aquilo que passa, Laura finda por trabalhar com a vida, que não cessa de mudar, operando ciclos de nascimentos, transformações e mortes. O encontro com suas manifestações nos possibilita experimentar o tempo, nos fazendo lembrar que nós também estamos em permanente movimento. Menos do que um olhar pessimista sobre o passar das horas, há aqui um chamado para uma potência afirmativa. Se com certas obras de Laura “aprendemos a morrer”, ganhamos também, no mesmo momento, a urgência de movimentar o tempo que temos, dizendo sim para os fluxos, sem estancá-los, aprendendo, quem sabe, a edificar cada dia como se fosse pedra, mesmo sabendo que se trata de areia. É justamente essa alquimia preciosa que a obra de Laura Vinci, na sua imponência delicada, em tudo contrária à superlatividade brutal do mundo ao redor, nos murmura como um segredo.

De 18 de outubro a 1º de março de 2009.

Capela do Morumbi
Av. Morumbi, 5.387 - Morumbi, São Paulo, SP
Fone 11 3772-4301
Aberta de terça a domingo, das 9 às 17h
Entrada franca