Foto
Veredas para FOTOiMAGENS

Talvez o nome escolhido para esta mostra, a mais abrangente de Ana Vitória Mussi até o presente momento, seja a primeira significação desta poética transversal. Poética esta que atualiza a passagem e a comunhão da fotografia com a imagem (e vice-versa), que lhe confere o estatuto de obra híbrida, cuja exploração linguística reflete outra corporeização visual: dá-se outro lugar para as imagens.
Estamos, assim, diante de um trabalho pioneiro, em vários sentidos, já que o que se vê é uma fotografia além da fotografia, que sabe estar em ambos os lados, o da história e o da ontologia em movimento. Se antes seus valores modernos primavam pela verossimilhança da verdade ou do momento instantâneo, agora se reconhece muito mais a complexidade do real, a sua multifacetada presença e ficção, e até mesmo a idiossincrasia mutante de seus objetos estéticos. A consideração da imagem como criação e signo não descansa mais no exclusivo registro (a pós-produção visual aumentou muito seu papel) nem em uma apresentação bidimensional, pois se reconhece o valor da construção imagética, além do consabido objetivo do aparelho... Reconhece-se, por conseguinte, seu ser de fotografia ampliada, transversa, que ultrapassa territórios comuns do gênero por meio da intensa intervenção nas imagens, da revalorização de todos os elementos materiais da fotografia, do metamórfico local de ação visual, da mutação de suas superfícies e espaços, da dinâmica de trabalho com imagens de segunda geração ou da comunhão de imagens em movimento e fixas, entre outros aspectos cognitivos que mudam nossa percepção. Desde muito cedo (1968), a fotógrafa e artista – nessa ordem – realiza imagens mistas, paradoxais, nas quais a fotografia é o ponto de partida, mas não exclusivamente de destino, não mantendo, assim, o estado da aura no mesmo lugar em torno das fotos.

Tudo visa à transformação de nossa percepção via experimentação fotográfica (o que desloca certo mitificado divisor de águas entre fotógrafos-artistas e artistas-fotógrafos). Surpreende, então, a multiplicidade de experiências inscritas em FOTOiMAGENS e sua inquietante mudança de modus operandi e razão poética, a alteridade imagética em curso (esse outro da imagem em jogo) que aí vemos. A “impureza” visual de tantas aproximações – tão alheias ao cânone – ilustra a falta de ensimesmamento artístico pelo número de suportes, dispositivos e objetos de visão que são trazidos à tona. Sair da imagem domesticada, do corpus burocrático de certos hábitos visuais clichês, leva a uma contínua exploração e itinerância. Não há um horizonte único, mas uma alternada sucessão de miradas, de índole e tipologia diversas: um sinuoso roteiro de negativos, kodalites, slides, cópias desnaturalizadas, séries de técnica mista, instalações, apropriações ou então uma fotografia objetual que também se deixa permear pela arquitetura, ou ainda é acionada em uma simbiose foto-cinema, estática e movimento. 

Entre uma realidade deflacionada (à baixa) e uma sociedade estetizada (à alta), FOTOiMAGENS habita certa ressurreição visual, devolve a encarnação mágica nas imagens, como aludia Vilém Flusser (inclusive em imaginários saturados como o do esporte), e religa uma instigante condição limiar da fotografia: sua capacidade de estar entre-mundos (ser marca, espelho, sombra e visão), colocando, de novo, o trabalho fotográfico em uma viva experiência de limites, pois, como escritura analógica e digital sui generis, ela se faz mais valiosa como poiesis (invenção mais de linguagem do que de discurso), como convite para nossa animação simbólica das imagens, para restabelecer a potência de seu lugar cultural, e, ainda, como conjuro do inefável.

Adolfo Montejo Navas


ESPORTE ATRAVÉS

Não só o esporte, um dos imaginários mais revisitados da contemporaneidade, mas todo o projeto artístico de Ana Vitória Mussi baseia-se nesse “através”, em uma operação perceptiva de atravessamento do olhar e da distância. A atenção dada ao universo contingente e ao mesmo tempo ritualístico de numerosas disciplinas esportivas (futebol, boxe, esgrima, natação, patinação, ginástica...), relembra as vicissitudes hercúleas de qualquer atividade, o desafio da condição humana. De fato, é o élan vital desses esforços, sua simbologia mítica para um corpo (apolíneo e dionisíaco ao mesmo tempo) o que nos atrai no olhar da artista. E isso independente da mercadotécnica ou espetacularização da época globalizada, apesar de obter a maioria das imagens da TV, de ver através, nas frestas de outro meio visual, oferecendo imagens tão híbridas e dinâmicas em sua representação (suporte) quanto em sua visão (conceito). Na mesma sala introdutória desta biografia artística, encontra-se Ossos, série emblemática cuja dramaticidade não se esconde, e que explicita muito cedo o caminho de interferência visual da artista sobre o corpus da fotografia, seu grau de pós-produção. Aí também se constata o uso permanente do preto e branco (suas luzes e sombras, certamente), tanto como um princípio de realidade (gravidade) como de desejo (pulsão).

ARQUITETURA DA MEMÓRIA E MEMÓRIA DA ARQUITETURA

Arquitetura e memória são duas linhas que convergem na obra de Ana Vitória Mussi, atingindo experiência espacial e superpondo-se camaleonicamente. Neste intervalo imagético (este entre tempo e espaço que faz sua própria troca, seu próprio câmbio de signo e influência) inscreve-se tanto a paisagem exterior quanto a interior, uma configuração tão reconstrutiva (geometrias) quanto de escrita serial da luz (mutações) – seja na trama de Olhando a paisagem ou em Fuit Huic, o que evidencia outro sentimento do tempo-espaço, e vice-versa.  Quanto à presença humana, tão frequentemente elíptica, anônima, coletiva, visível apenas por meio da notória fragmentação de nosso tempo, ela ganha densidade, dramaticidade quando aparece, o que está em sintonia com a complexidade do real, da vida em todas suas instâncias.
Ao lado, o paradoxo visual do díptico Autorretrato de areia (qual não é?) eleva a condição humana de qualquer pessoa a uma sensualidade metafórica, com a sua correspondente pele do tempo. A imagem do ser humano nesta poética, aliás, é tida como aparição, fulguração – daí o fato de que nossa figuração social tenha tanta onipresença quanto nossa ausência como sujeitos. O lugar das imagens, o espaço, recebe aqui múltiplas formas e uma grande dilatação visual, como é possível descobrir através deste percurso.

UM NOVO LUGAR DAS IMAGENS

A presença que os objetos têm na fotografia tridimensional de Ana Vitória Mussi, seja em regime escultórico ou instalação, amplia os caminhos da percepção com novas cesuras da representação e favorece outra dialética entre a fotografia e a imagem. Trata-se aí de um mergulho físico diferente, em uma visualidade que já exige  de nós certa implicação sinestésica, e não apenas sua contemplação. Neste sentido, o uso de diversos materiais nunca diz respeito apenas ao suporte, mas, sobretudo, à transformação corporal da fotografia, à instauração de um novo lugar das imagens, de seu acontecer: é o que podemos observar em Por um fio ou, no terraço, em Mergulho na imagem. Além disso, outros sendeiros fulcrais desta obra passam pela sincronia entre imagens fixas e em movimento, pela instigante aproximação com os fotogramas, a relação às avessas entre fotografia e cinema (cinema virando fotografia, videoinstalação), ou a  fotografia móbil, sequencial apropriada da TV. Em suma, favorece-se aí um continuum imagético que tem um lado abissal como linguagem cruzada de entre-imagens: é o que acontece em Bang, um filme-colagem sobre a violência e o olhar; em Box na TV, exibido no térreo; em Heteronímia, especulação visual que escaneia um imaginário rarefeito de nossa época, deslocado, em crise, e no patchwork abre-alas Atalhos e desvios – todos frescos contemporâneos em que (se) coabitam vários tempos e espaços críticos. 

UM GRAU ZERO DA FOTOGRAFIA

Nada mais sintomático que se encontrar aqui com negativos, kodalites, slides, rolos de filmes como objetos estéticos, proposta com nome próprio de uma fotografia que olha tanto para fora quanto para dentro: a imagem exterior que sonhamos como realidade e sua semente  matérica feita resultado. É como se o final da imagem fotográfica estivesse contida em seu começo, deixando, assim, os a priori e a posteriori confundidos, para manter nossa necessária liberdade imaginativa, fora da domesticação. A vida ignota que contém esta produção parece regressar a um grau zero da fotografia, a matrizes físicas, inaugurais, de pré-logos, pré-linguagem... Ou ao bastidor e índice de tudo o que é marca, rastro, sinal. Assim, o peso dos negativos como signos expositivos – e positivos – é outra ironia formal, outra impureza estética desta poética que, em algumas obras-memória de celebridades, resulta em um raro poder político, dado seu viés des-construtivo (ainda mais por ironizar estamentos sociais que operam com o privilégio como natureza). A tua imagem ou Por um fio parecem dizer, Sotto voce: finis gloriae mundi – legenda de certa pintura barroca –, pois, como naturezas-mortas metonímicas, mostram o negativo (oxidação) de um positivo (glamour) decorrido, nas quais é reconhecida a melancolia, algo sempre próprio da fotografia como arte elegíaca, crítica e fiel com nosso desassossego e memento mori

FANTASMÁTICA

O ato de fotografar (de retratar, mais concretamente) entre duas mesas-placas serigráficas faz parte de uma ação histórica de Ana Vitória Mussi, que está presente em FOTOiMAGENS, e que visa a integrar e vincular fotografia, performance e gravura, sem contraindicações. Como obra in situ, a artista levará a termo esta ação em dois momentos da mostra: na inauguração (em 09 de abril) e durante o lançamento do livro de artista (em 29 de abril), expondo seus resultados nos dias seguintes, na parede exterior do local, como se fosse uma galeria de retratos pública, cuja aura fantasmática faz de Recortes uma obra sui generis e até mesmo inquietante. Durante esse intervalo operativo de tempo, a sala viabilizará um vídeo que registra a atividade de Mussi e dos momentos citados. De novo, e como na sala contígua, mas de outro modo, a materialidade física da imagem, sua aura evanescente e a rarefação da representação (seu grau de enigma) sobrepujam qualquer aproximação fidedigna, naïf ou meramente transparente. A sombra e o opaco da visualidade geram, aqui, certa ironia do positivismo realista, abrigam uma reserva de sentido e de mistério – a salvo de qualquer mediatização visual.


Evento: Veredas para FOTOiMAGENS
Abertura: sábado, 9 de abril de 2016 das 11h às 14h
Período expositivo: 9 de abril a 12 de junho de 2016

Local: Casa da Imagem
Endereço: Rua Roberto Simonsen, 136B
01017-020 - Sé – São Paulo SP
Telefone: 11 3106-5122 - Ramal 203/205 
Horário de Funcionamento: de terça a domingo, das 9 às 17 horas
Entrada gratuita