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Arrasto

Instalação de Marcelo Moscheta na Casa do Bandeirante

Em agosto de 2010, encontrei-me com Marcelo Moscheta para uma conversa em torno de “Contra.céu”, instalação que o artista tinha acabado de apresentar na Capela do Morumbi, uma das unidades do Museu da Cidade de São Paulo. Pareceu-me curioso encontrá-lo para essa conversa, por uma questão de praticidade, na Casa do Bandeirante, outra unidade do Museu. O mapeamento de imagens com registro das localizações das paisagens já estava presente em seu trabalho há algum tempo, mas, naquele momento, o Marcelo tinha acabado de realizar o primeiro trabalho no qual a paisagem deixava de ser apenas uma representação na sua obra, passando a ser deslocada para dentro dela, a partir de expedições – como as dos bandeirantes, de desbravamento – nas quais realizava coletas e mapeamentos, em percursos e traçados simbólicos pré-determinados. Na época, conversamos sobre essa operação, sobre a ambição escultórica do trabalho, sobre Land Art e sobre a potência de deslocar a paisagem, mesmo que não fosse com um trator, mas sim com as mãos, em uma escala silenciosa, em um gesto tão grandioso quanto.

Em razão da parceria do Museu da Cidade de São Paulo com a Fundação Bienal de São Paulo para a participação do artista português Hugo Canoilas na 30ª Bienal de São Paulo, de 2012, parecia lógico convidar Moscheta para acompanhá-lo por uma viagem ao interior de São Paulo. Seria a possibilidade do cruzamento de dois olhares em torno da mesma prática de deslocamento por um território para realizar coletas e desenvolver um trabalho. Hugo faria viagens ao interior de São Paulo, pela rota dos bandeirantes. Das viagens, resultaria a instalação do artista na Casa do Bandeirante, como a participação dele naquela edição da Bienal. A ideia sempre foi que, terminada a exposição de Hugo, que traria a sua visão do percurso pela rota dos bandeirantes, Marcelo Moscheta ocuparia a Casa do Bandeirante com a sua abordagem. Os caminhos do rio Tietê e a rota dos Bandeirantes se cruzam inúmeras vezes rumo ao interior do Estado, e é a abordagem do rio e de sua paisagem que Moscheta escolheu para falar de seu percurso.

A Casa do Bandeirante retoma suas atividades, após escavações arqueológicas e obras de modernização do seu entorno, com “Arrasto”, instalação de Marcelo Moscheta, resultado Bolsa Funarte de Estímulo à Produção de Artes Visuais. Para Arrasto, o artista realizou uma nova viagem, agora de fato perseguindo as margens do rio Tietê, coletando informações, imagens e fragmentos da paisagem que passaram a integrar a instalação. A viagem passou por todas as 62 cidades dentro do Estado de São Paulo que margeiam o rio Tietê, percurso esse registrado no diário de bordo aqui presente.

A instalação consiste em um grande desenho de grafite sobre PVC expandido, técnica tão instável quanto a própria água, que pode se apagar com o toque. A imagem “Salto do Avanhandava”, foto de autor desconhecido e pertencente ao Museu Histórico e Pedagógico de Penápolis, é a referência para o desenho. A imagem traz a cachoeira do rio Tietê hoje inexistente, destruída por barragens e represas.

Antes da viagem, Moscheta também visitou o Sítio Morrinhos, outra unidade do Museu da Cidade, onde está instalado o Centro de Arqueologia de São Paulo. De lá o artista se apropriou de técnicas de catalogação e acondicionamento de fragmentos arqueológicos, que agora se apresentam na instalação. As pedras, fragmentos dessas paisagens do rio, se organizam divididas, margem direita e margem esquerda, ao lado da fantasmagórica imagem de um rio que já não existe mais. De frente para o rio Pinheiros, que mais à frente deságua no Tietê, a imagem está onde originalmente passava o rio, nos fundos da Casa do Bandeirante. A alteração dessa paisagem é decorrente da retificação entre as décadas de 1920 e 1950, que transferiu a passagem do rio Pinheiros para a frente da Casa do Bandeirante.

O mapeamento poético realizado por Moscheta realiza uma transposição simbólica de toda a extensão do rio Tietê para dentro da Casa do Bandeirante. A alteração do rio e da paisagem de seu entorno é o que fica registrado aqui, em uma fantasmagoria histórica de algo que deixou de existir, mas que permanece presente em outro estado, como testemunho da presença do rio e da ação do homem na paisagem.

Douglas de Freitas




Evento: Arrasto
Abertura: dia 19 de setembro de 2015
Período expositivo: 19 de setembro a 17 de abril de 2016
Casa do Bandeirante
Pça Monteiro Lobato, s/n° - Butantã, São Paulo, SP
Fone 11 3031 0920
Horário de Funcionamento: de terça a domingo, das 9 às 17 horas
Entrada gratuita