Foto
Por debaixo do pano

Exposição de Nair Benedicto

Um verso para o tempo interminável
Diógenes Moura, curador

Na sala da sua casa, no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, Nair Benedicto me diz que nunca fez uma fotografia para ser a mais importante de todas as imagens: “Quero que seja a melhor representação do que estou vendo. Se você se liberta de tudo, a fotografia acontece. Determinadas fotos me dão tanta querência que não me preocupo com o ‘estilo’ em que ela poderá ser definida”. Em torno da mesa redonda onde estamos há o silêncio da sala, os livros, os pequenos bancos indígenas, os móveis de família, os retratos dos filhos, netos e antepassados, os vasos com galhos de urucum recolhidos no jardim.

Foi dali, próximo à janela, que foram feitas as duas últimas imagens que estão em Por Debaixo do Pano: uma cena impregnada de cinza, paulistana entre fuligem e capitalismo, com quase nenhum reflexo do janelão vazado por onde se vê o lado de fora da rua invertido, os prédios de cabeça para baixo. A fotografia foi pensada para finalizar a série sobre a ditadura militar. Foi daquela forma, presa ao pau de arara, que Nair Benedicto foi torturada, em 1969. Lá, sem nenhuma chance, ela enxergava o mundo ao redor virado ao contrário. Portanto, a série de imagens invertidas foi concebida para não esquecermos que cicatrizes não se transferem e que depois desse período de ‘guerra’ pelo qual passamos tivemos que espremer a liberdade para não sermos transformados em coisa pela sombra monstruosa dos que nos perseguiram durante 21 anos seguidos. Livre, Nair Benedicto escreveu sua história com as próprias mãos.

Por isso ela sussurra em cada uma das suas imagens, como um segredo guardado dentro do outro. Quanto mais olhamos, mais descobrimos. Nada em seu espaço visual fica parado no tempo. Parado na memória, sim. Como deve ser a verdadeira fotografia. O mundo está à beira, quase sem saída, impregnado por uma falsa moral digital, pífia, sinistra. Ultrapassar poderá ser um verbo futurista. Assim é Por Debaixo do Pano. O pensamento de uma artista diante dos seus dias: a mulher que se põe (despida) diante da nossa avassaladora existência humana. Esse, o contorno estupefato e ao mesmo tempo aveludado que conduz sua criação pelo menos nas últimas cinco décadas. “Trabalho com o que acho importante, com o que quero. Isso é um privilégio, estar diante do mundo e deixar que ele interfira no meu olhar. É essa sensação que provoca em mim o desejo de compartilhar o que vi e vivi. Atualmente as pessoas definem seus trabalhos a partir de resultados financeiros. Eu pude usar a minha paixão para traçar o meu destino, político, social”, disse-me outra vez com o seu jeito ciber-caboclo-pan-amoroso.

Nada em Por debaixo do Pano vaza para limites exteriores. Um título que estatela diante de nós a realidade falsamente camuflada e desnuda da nossa vida cotidiana rachada ao meio, onde a mentira e as palavras dissimuladas precisam ser incendiadas em cada amanhecer. Sabendo disso Nair Benedicto revê as famílias; as tribos indígenas; as manifestações populares; o grito dos movimentos nas ruas/o corpo/o gesto/o músculo da vida cotidiana em chamas; a coragem do outro no gênero possível, real, múltiplo e do próximo gênero que ainda está em construção. Olha adiante como olha para si mesma. Escreve numa exposição o lhe perturba nos tempos atuais. Por tudo isso Por Debaixo do Pano não é apenas fotografia: é também navalha na carne, a noite dos tempos, o corpo líquido, o músculo em chamas, um poema nascendo, o cinema transcendental, a garganta das coisas.


Ventos na superfície do oceano
Nair Benedicto

O que eu sempre quis na vida foi ser protagonista. Nasci em São Paulo. Meus primeiros 10 anos vivi no bairro da Liberdade. Os vizinhos eram descendentes de italianos como eu, ou espanhóis, negros, japoneses, árabes. Meu primeiro namorado foram dois irmãos japoneses. Sem drama! Num dos primeiros boletins de avaliação da ótima escola pública que eu frequentava, tentei transformar minha nota 3 em 8. Minha mãe foi chamada. Não fui punida pela escola, nem pela minha mãe (já viúva), mas percebi que estudar e aprender eram oportunidades que não deviam ser desperdiçadas.

Adolescente, arrumei correspondentes em vários países da América Latina, Europa e Ásia. Alguns deles conheci pessoalmente. Infelizmente, a polícia dos anos 1960, quando invadiu minha casa, apreendeu fotos e cartas desse período bonito da minha vida, como comprovantes de minha subversão. Formei-me em Rádio e Televisão cursando a FAAP e a USP. A ditadura dos anos 1970 tornou impossível o exercício da profissão nos canais normais. Tornei-me fotógrafa!

Tenho nojo ao ver pessoas empunhando bandeiras nas ruas e nas redes sociais pela volta dos militares. Mas é fácil de entender: 30 anos de ditadura, matança generalizada de lideranças rurais, operárias e estudantis. Exílio de cabeças pensantes como Paulo Freire, Oscar Niemeyer, Celso Furtado, Darcy Ribeiro e outros. Cargas tributárias sobre consumo e produção. Uma elite vivendo sem trabalhar, apenas administrando heranças e o próprio capital, habituada a tratar o bem público como se fosse privado, socializando dívidas e privatizando ganhos. A Constituinte de 1988 não chegou sequer a arranhar alguns problemas básicos: revisão das concessões dos meios de comunicação, reforma política, reforma agrária, imposto sobre fortunas. A Nova República nasceu morta, aglutinando os remanescentes da Ditadura. Deu no que deu!

Sou contra a corrupção. Mas ela precisa ser atacada sem cinismo nem hipocrisia. Corrupção é corrupção! Corrupto precisa deixar de ser apenas o OUTRO: o outro indivíduo, o outro partido, o outro time. Mensalão, trensalão, Banestado, Metrô de São Paulo, Vale do Rio Doce, compra de votos, sonegação de declaração do Imposto de Renda, subornos de guardas. A corrupção acaba com a noção do bem comum. Acaba com a política. Além da crise econômica e social, vivemos um momento de falta de representatividade. Na periferia, entre outras coisas aprendi que não existe bala perdida. A bala é artefato feito para matar. Não temos lei da pena máxima na legislação, mas ela existe na prática. A polícia em São Paulo e no país todo está matando: índios, líderes rurais, negros, mulatos e pobres de qualquer cor.

Apesar de tudo, as pessoas da periferia estão criando: música, poesia, grafites, literatura, contos. Votar de vez em quando não basta. Estão surgindo novos protagonistas, e isso incomoda demais nossa elite do dinheiro, dos filhos de sicrano, dos netos de beltrano. Essa elite quer vassalos, não interlocutores. Num dos audiovisuais que produzi nos anos 1980, sobre propriedade de terra e moradia, uma mulher, liderança dos favelados, terminou sua fala com uma frase que nunca esqueci: “Neste período todo de nossa luta, descobri que sou gente! E isto não tem volta!”.

Precisamos repensar os modos de vida. A sobrevivência exige muito mais que esse empedernido ser humano que se vê como o centro do Universo. Precisamos uns dos outros. Precisamos exercitar a tolerância que tanto nos está fazendo falta neste mundo impregnado de ódio, em que fomos atingidos pela mídia em geral. Tolerância não significa apenas o esforço de aguentar o diferente de nós. A diferença nos enriquece como seres humanos. Aprender a ser gente! Ir além do Homem. É em nome desse valor que devemos nosso respeito à terra, à água, aos animais, às arvores, às flores e a todos os viventes deste planeta onde vivemos. Já perdemos tempo demais. Mãos à obra!


Evento: Por debaixo do pano
Abertura: dia 7 de novembro de 2015
Período expositivo: 7 de novembro de 2015 a 20 de março de 2016

Local: Casa da Imagem
Endereço: Rua Roberto Simonsen, 136B
01017-020 - Sé – São Paulo SP
Telefone: 11 3106-5122 - Ramal 203/205 
Horário de Funcionamento: de terça a domingo, das 9 às 17 horas
Entrada gratuita