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Vagas, trajetos, sítios

Domitilas, de Kika Nicolela

Uma mulher jovem em fortes conflitos, íntimos e afetivos, se debate num banheiro de mármore. Outra mulher carrega metros a fio um saco de pedras que, pela abertura, sempre possibilita que caia no trajeto uma ou mais delas. Uma senhora, sentada no chão de uma cozinha, pita seu cachimbo e relembra um passado mais festivo e glorioso. Outra jovem, em sua casa (contemporânea) recebe um buquê de flores e comemora, numa dança algo desconcertante, perturbada. Construções de linhas elegantes, que outrora foram palácios ou abrigos seguros, permanecem em pé como que num limbo, em meio a uma vegetação que chega a ser opressiva, ou resistem teimosas, imbricadas na complexa teia urbana de zonas centrais metropolitanas, numa mescla de vitalidade e degradação.

São enérgicas cenas construídas pela artista paulista Kika Nicolela em seu projeto Domitilas, videoinstalação que ganha inicialmente as salas expositivas do Solar da Marquesa, conjunto histórico-artístico relevante para o patrimônio excessivamente frágil da cidade de São Paulo, tão envolta em ritmos autofágicos.

No entanto, talvez a personagem que mais incomode em Domitilas é a de uma jovem, em figurino que pode ser de um pós-festa não muito feliz, a andar sem rumo em demasia por escadarias, ruas, praças e calçadões cinzentos à beira de monumentos pichados e de cores desbotadas. Ela tem como coadjuvantes camelôs, artistas de rua e um público multifacetado. Há desde os que dão rolês de skate no plano calçamento do antigo centro nobre da cidade como aqueles que, por exemplo, trazem à mão sacolas repletas de bugigangas compradas na 25 de Março e cercanias, pouco abaixo do lócus onde se situa o ainda elegante Solar da Marquesa, antigo Palacete do Carmo.

E é da ordem do fantasmagórico essa errância da personagem, a inquietar quem assiste o vídeo. Essa andança desconectada, que parece extenuá-la, tem tudo para irritar o cidadão médio das grandes cidades de hoje, sempre com pressa, com destinos definidos, compromissos, atuações. Perambular é estar à margem, perturbar. Contudo, tal procedimento tem sido potente vetor poético de variados artistas contemporâneos. “‘Você sabe o que quer dizer [o termo marítimo] erre?’, pergunta Lacan. ‘É algo como o impulso. O movimento residual de uma coisa que depois que cessa o impulso que a propulsiona.’ Uma vez detido o motor modernista, no final dos anos 1970, muitos foram os que decretaram o fim do próprio movimento. (…) Os artistas de que falamos aqui pretendem ficar dentro do carro, seguindo a direção que foi a da modernidade _ embora fazendo rodar seu veículo ao sabor dos relevos com que se deparam e utilizando outro combustível: o erre, a velocidade adquirida, seria, assim, o que nos resta do movimento para a frente iniciado com o modernismo, o campo aberto para nossa própria modernidade, nossa altermodernidade”1, declara Bourriaud, um dos teóricos-chave de tempos relacionais e líquidos.

Biografia recortada
Se a flanêur parece embaralhar tempos, lugares e memórias, cujas indeterminações catalisam sentimentos de conflito nesse homem médio, ela corporifica alguns elementos interessantes da persona de Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867), mais conhecida como Marquesa de Santos. Mas, assim como o seu vagar proporciona incômodo, outros pontos da biografia da personagem _ numa mistura pouco precisa de fatos históricos e narrativas transmitidas a favor da lenda _ são refletidos pelas outras atrizes no desenrolar da produção.

Nicolela assume que a investigação do próprio processo audiovisual é decisivo no desenrolar do trabalho. Para isso, faz com que o cabedal histórico _de natureza variada, pois é uma figura rica em versões _ seja uma porção inicial na composição das personagens, quase um fiapo de história, que ganhará a subjetividade de cada atriz numa composição aberta. Há alguns eventos biográficos muito atrativos, mas que por vezes são minimizados por construções a posteriori, trabalhadas pelas protagonistas, que embaralham certezas. Assim, fatos e situações como o apedrejamento da casa da nobre assim que se soube da morte da mulher de D. Pedro I, a Imperatriz Leopoldina; o ambiente extremamente vigiado em que se encontrou por muitos anos; a rejeição da Corte em relação à figura dela como a ‘amante oficial’; e a velhice algo decadente, com reminiscências da intensa vida social pela qual passou, por exemplo, estejam a favor de uma narrativa que não quer ser certeira e que se pauta pela permeabilidade. Onde está a verdade? Talvez em nenhum take, mas o interessante é que, realizando seu cinema expandido, Nicolela discuta realidade e ficção, autorrepresentação e encenação, identidade e alteridade. E muito importante: em um produto audiovisual de formalização burilada e que verdadeiramente é guiado por uma não conformação _ daí a dificuldade em definições muito exatas sobre Domitilas.

Desdobrando questões já presentes em obras como Tidelands (2014), The Film That Is Not There (2012) e Actus (2010), sem descuidar dos elementos fundamentais de títulos que atestam sua habilidade cinematográfica _ Nicolela filma muito bem e, em especial, esta produção e Tidelands corroboram tal análise _, a artista paulista ainda contribui para alguns dos bons momentos imagéticos já rodados sobre São Paulo. Além do já citado vaguear da personagem fantasmática, a também instável caminhada da outra personagem, com as pedras, pelos marcos históricos da Independência, no Ipiranga, com sucessivos baques secos, e as tomadas na Casa de Pedra, na Serra do Mar, são indubitavelmente pontos inspirados no corpus da obra da artista. Além disso, cabe frisar o notável trabalho das atrizes, inclusive no outro vídeo que compõe a mostra, que emula o retrato da Marquesa de Santos assinado por Francisco Pedro do Amaral (1790-1831). “Deveu a mais pródiga natureza dotes físicos alucinados”, como escreveu o célebre Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) sobre a marquesa, cujos atributos essa tela-vídeo de hoje ajuda a perpetuar e a, ao mesmo tempo, exasperar.

Mario Gioia

BOURRIAUD, Nicolas. Radicante. Tradução de Dorothee Bruchard. São Paulo: Martins Fontes, 2011. 196p.




Evento: Vagas, trajetos, sítios
Abertura: 15 de novembro de 2014, sábado, às 13h
Período expositivo: de 15 de novembro de 2014 a 26 de janeiro de 2015

Local: Solar da Marquesa de Santos
Endereço: Rua Roberto Simonsen, 136
01017-020 - Sé – São Paulo SP
Telefone: 11 3241 1081 - Ramal 103
Horário de Funcionamento: de terça a domingo, das 9 às 17 horas
Entrada gratuita