Foto
Ibirapuera: modernidades sobrepostas

Protagonizada pelo conjunto arquitetônico projetado por Oscar Niemeyer, a inauguração do Parque Ibirapuera (1954) define a imagem do segundo período da modernidade paulista, passados mais de trinta anos da Semana de Arte Moderna de 22.

Simultâneo à transição entre uma discreta figuração cubista oficial e o abstracionismo geométrico, identificado como concretismo paulista, o IV Centenário da Cidade de São Paulo foi argumento e pano de fundo para a elaboração de um peculiar projeto modernizador que revela justamente as contradições de uma sociedade conservadora, mas em acelerado processo de transformação. A criação da Bienal de Arte de São Paulo, juntamente com as fundações do Masp e do MAM-SP, posiciona a capital paulista como centro nacional da difusão da cultura e das artes.

O evento do IV Centenário se caracteriza pela sobreposição de modernidades distintas. A arquitetura de Niemeyer, formulada a partir da relação entre linha gestual e paisagem natural, sendo assim antiurbana, síntese entre a exterioridade carioca e a referência basilar de Le Corbusier, contrasta com a representação escolhida para ocupar o Pavilhão das Artes: o modernismo comportado dos painéis elaborados por Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Clóvis Graciano e Manuel Lapa, que narram os temas pertinentes ao imaginário paulista do período, como a agricultura e a industrialização.

Entretanto, para além da inédita escala monumental que a arquitetura moderna assume e da adaptação de uma construção pictórica despretensiosamente cubista à temática paulista, o IV Centenário e a construção do Parque do Ibirapuera são a circunstância e o lugar para a exibição do desenvolvimento da indústria nacional, aos moldes de uma Grande Exposição Universal, que não ocupou apenas os pavilhões definitivos do Parque, mas uma série de edificações provisórias, construídas especialmente para as exposições temporárias atreladas a esse período de comemorações.

Como uma espécie de clareira moderna no arrabalde, a construção do conjunto do Parque Ibirapuera é contemporânea ao período de maior crescimento da cidade de São Paulo. No ambiente cultural brasileiro, a afirmação moderna não consiste em uma inteligência submetida às forças que regem o funcionamento da metrópole, mas define-se como um reincidente ato de fundação do “novo” sobre um território ainda intocado, imune à intervenção de qualquer preexistência, desse modo, apartado do tecido urbano da cidade real. Curiosamente, a escala monumental dessa nova hipótese de sociabilidade urbana só se constitui se implantada na margem da cidade.

A conflituosa coexistência entre o crescimento da metrópole e a precisa unidade formal do conjunto arquitetônico expõe a inviável conciliação entre ambos, revelada na dificuldade em se recuperar a entrada original do Parque, e no isolamento do Palácio da Agricultura, atual MAC-USP, com relação aos demais edifícios que integram o conjunto.

Apesar de contaminar-se pela atmosfera otimista do IV Centenário, o processo de transformação pelo qual passou o ambiente artístico paulista nos primeiros anos da década de 1950 caracteriza-se por uma revisão crítica com relação às próprias convicções do projeto moderno brasileiro.

A compreensão sobre o esgotamento de uma controversa modernidade alegórica, absorvida como programa oficial pelo Estado Novo, conduz a um consequente processo de simplificação que culmina na construção abstrata, ampliada aos componentes utilitários de um novo cotidiano urbano, como o desenho industrial e a comunicação visual.

A construção do Parque Ibirapuera abre caminho para uma nova escala de consciência sobre nossa condição moderna, que supera a representação descolada do mundo real, ao conferir um sentido estético único a todos os domínios da vida, das artes visuais ao urbanismo.

Rodrigo Queiroz e Ana Barone - curadores





Evento: Ibirapuera: modernidades sobrepostas
Período expositivo: de 04 de setembro de 2014 a 18 de outubro de 2015

Informações e agendamento de grupos e escolas:
clique aqui


Local: Museu da Cidade – OCA
Endereço: Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n - Portão 3
Parque Ibirapuera / São Paulo – SP
Telefone para informações: +55 11 3105-6118 Ramal 103 
Horário de Funcionamento: de terça a domingo, das 9 às 17 horas
Entrada gratuita