Foto
Sérgio Jorge: múltipla trajetória

Rubens Fernandes Junior


Desde o início, no Foto Cine Clube de Amparo, em 1952, até hoje, no Jorge’s Estúdio, muitas imagens passaram pelos olhos de Sérgio Jorge, um dos grandes mestres da fotografia brasileira. Claro, nem todas as imagens se viabilizaram fotograficamente – parte delas ficou fixada apenas em sua memória e outra parte se transformou em relevantes documentos iconográficos da história do Brasil.

Impossível conhecer alguns dos principais momentos da história da nossa fotografia e do nosso país sem passar por algumas de suas imagens, como por exemplo, o primeiro Prêmio Esso de Fotojornalismo, a moda de Denner e Clodovil, o milésimo gol de Pelé, a inauguração de Brasília, as primeiras corridas no Autódromo de Interlagos, a demarcação territorial brasileira no Polo Sul, a construção da rodovia Belém-Brasília, o Estúdio Abril de Fotografia, entre muitos outros significativos flagrantes que configuram a trajetória de um dos mais aguerridos profissionais: Sérgio Jorge.

Ele foi atraído pela fotografia sinestesicamente, ou seja, primeiro pelos olhos e, em seguida, pelo olfato e pelo tato. Sim, o cheiro dos químicos do laboratório e o trabalho artesanal de revelação contaminaram suas decisões ao escolher sua profissão. Afinal, naquele momento, a fotografia parecia muito mais dinâmica e divertida que a possibilidade de se tornar um sério advogado como seu pai. 

O primeiro trabalho foi na Casa Fotográfica de Elisário de Castro Negrão, seu mentor, em Amparo, sua cidade natal. Na penumbra do laboratório, não só aprendeu os primeiros segredos da magia fotográfica, mas também foi atravessado por uma energia que modificou seu olhar diante das cenas do cotidiano. Tempos depois, ao chegar em São Paulo, esse olhar alterado, associado ao seu estilo e técnica, começa a adquirir uma sintaxe própria.

A cidade despertava novas ambições e gerava expectativas diversas. Nessa agitação, descobre o pulsar da redação do jornal O Dia – seu primeiro emprego como profissional –, onde dezenas de máquinas de escrever, somadas aos ruídos dos linotipos e das rotativas, estão sintonizadas com o ritmo frenético da efervescente metrópole. Sua atividade como fotógrafo passa a ser pontuada por esse desejo de estar sempre em movimento e de ampliar a visibilidade de seu trabalho como repórter fotográfico. Em poucos meses, sua constante atividade foi notada pelos profissionais dos jornais A Gazeta e A Gazeta Esportiva, para onde se transferiu a convite.

Tornou-se uma espécie de cronista visual do período, desenvolvendo um trabalho marcante e de grande ressonância, seja pela liberdade nos enquadramentos, seja pela sua intensa curiosidade. Passa a ser respeitado pelos fotógrafos da velha guarda da imprensa paulistana e integra uma nova geração que nasce exatamente no final dos anos 1950. Jovem, reconhecido tecnicamente e bastante agitado, começa a preencher seu tempo livre com pautas inventivas para a revista Manchete, onde se torna um requisitado freelancer.

Uma de suas experiências mais incríveis de menino do interior foi quando teve seu cão preso pelo homem da carrocinha, salvo graças à intervenção de seu pai, que conseguiu imediata devolução. Adulto, essa mesma vivência foi reacendida em sua memória e lhe permitiu criar uma narrativa visual tão emocionante que se transformou no primeiro Prêmio Esso de Fotojornalismo, em 1960, categoria inexistente até aquela edição, destinado a consagrar as principais matérias publicadas na mídia impressa do país. Esse é o grande momento de explosão profissional na trajetória de Sérgio Jorge. Essas fotografias foram publicadas em 36 revistas e jornais de todo o mundo. O menino simples e curioso de Amparo torna-se um repórter celebrado internacionalmente. Uma consagração!

Desde então, Sérgio Jorge não parou mais de fotografar: repórter das revistas Manchete e Fatos & Fotos, diretor do Estúdio Abril – onde foi responsável pela formação de inúmeros jovens, hoje profissionais reconhecidos e atuantes no mercado – e renomado fotógrafo publicitário que atende grandes agências e empresas nacionais e multinacionais. Sua trajetória múltipla é sintonizada, técnica e esteticamente, com seu tempo. Seu acervo reúne mais de 60 mil fotografias e documenta um período de quase seis décadas de grandes transformações sociais, políticas e culturais do país.

Sérgio Jorge garante que viveu tudo com muita alegria e emoção. Quando rememora a importância que a imagem tem em sua vida, costuma manter a mesma sinceridade daquele menino que um dia descobriu um novo e mágico mundo no laboratório do velho Negrão, em Amparo: “Entendo que toda fotografia é uma vitória e, como a luz vermelha do laboratório, ela se transformou no sangue que corre em minhas veias”.

A Casa da Imagem reúne, pela primeira vez, cem fotografias de Sérgio Jorge e dedica integralmente seu espaço não só para prestar uma homenagem, mas, principalmente, para dar a exata dimensão de sua importância para a história da fotografia brasileira.


Evento: Sérgio Jorge: múltipla trajetória
Abertura: 31 de maio de 2014, sábado, às 11h
Período expositivo: de 01 de junho a 10 de agosto de 2014

Local: Casa da Imagem
Endereço: Rua Roberto Simonsen, 136B
01017-020 - Sé – São Paulo SP
Telefone: 11 3106-5122 - Ramal 203/205 
Horário de Funcionamento: de terça a domingo, das 9 às 17 horas
Entrada gratuita e livre