Foto
Archivo Cordero

Miguel López-Pelegrín

Esta exposição pretende dar a conhecer a relevância do trabalho de Julio Cordero realizado no início do século XX, em La Paz, capital da tão desconhecida como apaixonante Bolívia. Por esta seleção de pequenas cópias de época, pode-se dar contorno a um primeiro contato com o que, no futuro, viria a ser, sem dúvida, uma das referências essenciais para se compreender a trajetória da imagem fotográfica no continente latino-americano. O estúdio desse grande fotógrafo emerge tanto pelas suas contribuições estéticas quanto por seu conteúdo documental.

É possível que tenha chegado o momento de redefinir de uma vez por todas a verdadeira história da fotografia latino-americana, e para isso seria preciso partir da compreensão da diversidade como elemento principal e da integração das áreas periféricas como essenciais. Como é possível que existam tantas histórias da fotografia latino-americana e que todas elas ignorem integralmente os fotógrafos bolivianos? Esta lacuna se produz não por uma ausência mas pelo desconhecimento da obra dos fotógrafos que historicamente trabalharam nas principais cidades da Bolívia. A história da fotografia latino-americana que conhecemos hoje baseia-se em poucos pilares, e não chegou a explorar a diversidade de abordagens das complexas sociedades que a acolheram ao longo dos últimos 150 anos.

Nesta exposição – que é tão somente uma pequena e discreta aproximação ao imenso e complexo mundo de imagens que ainda permanecem escondidas no Archivo Cordero de La Paz, neste momento em fase de estudos –, abre-se uma porta para a história de um país belo e riquíssimo de valores humanos; um país que está constantemente buscando um lugar possível em um mundo competitivo e devastador, ao qual não parece pertencer. A Bolívia, como tantos outros países que estão mais além até mesmo do chamado “terceiro mundo”, que nós, a partir de nossas brilhantes cúpulas, desenhamos, abre-se para um novo século com os mesmos problemas endêmicos com os quais abandonou o anterior, mas com a esperança de encontrar um espaço em que possa viver e desenvolver-se com a dignidade que merecem todos os povos.

Por estes retratos, da firmeza e da temperança com que as pessoas posam diante da câmera de Julio Cordero, pode-se figurar um itinerário através de uma etapa da história cotidiana desse povo. Casais de namorados, famílias completas, colégios, casamentos, reuniões familiares, celebrações campestres, documentos policiais, registros militares, mas, antes de tudo, rostos que olham, muitas vezes pela primeira vez, para uma câmera que vai fixá-los para um futuro que os terá para sempre como passado.

Com essas poucas cenas fotográficas, é fácil ter uma ideia da sociedade boliviana no início do século XX e observar as contradições nas quais se encontra encravada. A Bolívia é um país no qual, de forma contrastada, convivem duas culturas radicalmente diferentes: a ocidentalizada, proveniente de sua herança europeia, com valores centrados no cristianismo e no capitalismo, e a multicultural indígena, com sua Pachamama comum, que como em nenhum outro lugar do continente americano segue tão presente e luta para não sucumbir diante da avassaladora força da economia globalizada.

Esta exposição é dedicada a todos os que fazem dos sonhos um lugar de luta de cada dia, e sobretudo aqueles que são capazes de projetar horizontes ante evidentes muros.



Evento: Archivo Cordero
Abertura: 24 de maio de 2014, sábado, às 11h
Período expositivo: de 25 de maio a 19 de julho de 2014

Local: Solar da Marquesa de Santos
Endereço: Rua Roberto Simonsen, 136
01017-020 - Sé – São Paulo SP
Telefone: 11 3241 1081 - Ramal 103
Horário de Funcionamento: de terça a domingo, das 9 às 17 horas
Entrada gratuita e livre