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Perfume de princesa

Instalação de Wagner Malta Tavares
2 de novembro de 2013 a 11 de maio de 2014

Os odores dos outros

A primeira observação sobre Perfume de princesa é bem simples: a estrutura de tubos que serpenteia pela escadaria do Beco do Pinto faz parte do trabalho de Wagner Malta Tavares, tanto quanto os aromas exalados por ela em pontos específicos do caminho. Esculturas como Herói (2010) e Anúbis (2008), nas quais ventiladores são acoplados a tecidos e objetos semelhantes a sarcófagos, legitimam esta afirmação, que aponta para um tema caro ao artista: a integração entre arte e tecnologia. Apesar de Wagner Malta Tavares parecer otimista a respeito das possibilidades estéticas do uso de artefatos tecnológicos, a recorrência do tema e o modo como costuma ser tratado indicam que a questão não está resolvida para ele, precisa ser continuamente levantada e exige explicação.

Uma segunda observação também é simples: em contraste com sua perspectiva futurista, o artista olha para o passado ao pesquisar a história do perfume e considerar a memória do lugar. Apesar disso, Perfume de princesa retoma o vento como forma, o que já havia sido feito nos trabalhos expostos em 2010 pelo Instituto Tomie Ohtake, como observou o crítico Rodrigo Naves. Em lugar dos tecidos esvoaçantes e do vento batendo no rosto dos espectadores, a máquina projetada por Wagner Malta Tavares sopra essências florais ao longo da histórica viela da região central de São Paulo, pontuando o caminho dos passantes com matrizes tradicionais de perfumes como rosa, alfazema e angélica, entre outros. O Beco do Pinto transforma-se em túnel do tempo ao reconstituir a atmosfera olfativa do século XIX, presidida por Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867), que viveu um longo romance com Dom Pedro. A partir de 1834, ela residiu no casarão que passou a ser chamado de Solar da Marquesa de Santos e hoje pertence ao Museu da Cidade.

Uma reflexão um pouco mais ambiciosa pode ser feita a partir das observações acerca dessa experiência olfativa, que, por meio daquela estrutura tecnológica, lança um olhar dividido entre o passado e o futuro. A busca pela cidade ideal e a idealização da paisagem natural (como nos jardins ingleses) estariam ligadas, segundo o antropólogo Alain Corbin, a uma “acentuação da sensibilidade” a partir da segunda metade do século XVIII. O autor caracteriza certas medidas de saúde pública como uma “ofensiva contra a intensidade olfativa do espaço público”. O combate sistemático ao mau cheiro de esgotos, hospitais e prisões descrito por Corbin não se relaciona com uma liberação do uso de cremes, perfumes e outros cosméticos, mas com o seu disciplinamento.

A história do perfume remonta ao Egito antigo (Gombrich comenta utensílios de perfumaria ornados com imagens dos deuses), mas entre os séculos XVIII e XIX substâncias aromáticas usadas tradicionalmente foram reprovadas por cidadãos aterrorizados pelo mundo microscópico revelado por Lavoisier e convencidos de que as virtudes cívicas provêm de um estado natural da humanidade. De acordo com uma ideia puritana de natureza, valorizam-se odores naturais do corpo, e o uso de perfumes recua. Até mesmo banhar-se passa a ser visto como um ato de vaidade potencialmente prejudicial à saúde. Colônias florais substituem os cremes produzidos a partir de substâncias extraídas de animais e passam a integrar um jogo de “códigos imperceptíveis” vinculado ao universo feminino, segundo a associação, que passa a ser contumaz, entre a mulher e a flor. Curiosamente, o revigoramento da nobreza intensificou o uso desses perfumes depurados como elementos de distinção social e dissimulação da sedução amorosa.

Biógrafo recente da Marquesa de Santos, Paulo Rezzutti cita descrições de viajantes admirados com a limpeza da cidade de São Paulo ao final do século XVIII. Poucas décadas depois, separada de Dom Pedro e vivendo no casarão da rua de Nossa Senhora do Carmo, Domitila exigiu a reconstrução do Beco do Pinto, invadido por um vizinho. Segundo Rezzutti, escravos encarregados de descer o Beco para atirar lixo no rio Tamanduateí por vezes o faziam no terreno da marquesa. Embora se aprecie o contato entre as pessoas de diversas gerações e classes sociais por meio dos seus aromas singulares, ou “impressões olfativas”, é impossível distingui-lo do controle social que cada indivíduo exerce sobre os odores dos outros e os seus próprios odores.

A fala de Wagner Malta Tavares que acompanha Perfume de princesa relata uma investigação acerca da Marquesa de Santos e problematiza a distinção entre a história factual e o imaginário. Concubina do imperador e benemérita paulistana, Domitila de Castro Canto e Melo potencializou a imagem da mulher paulista, que, ainda segundo Rezzutti, era tida por bela e independente. Sem pretender remover o fato da teia de significados que o envolve, no trabalho de Wagner Malta Tavares cristalizam-se fantasias, preconceitos, julgamento moral, idolatria: o túmulo de Domitila no Cemitério da Consolação tem sido venerado de diversas maneiras, e o perfume também é atributo dos cadáveres de santos.

José Bento Ferreira




THE ODORS OF OTHERS
Wagner Malta Tavares
November, 2. 2013 to april, 6. 2014


The first observation about Perfume de princesa [Perfume of a Princess] is a very simple one: the structure of tubes that winds along the stairs at Beco do Pinto is as much a part of the work by Wagner Malta Tavares as are the fragrances it exhales at specific points along the path. This finding is substantiated by sculptures such as Herói (2010) and Anúbis (2008) – in which fans are coupled to fabrics and objects resembling sarcophagi – and it points to an enduring theme for this artist: the integration between art and technology. Despite Wagner Malta Tavares’s evident optimism about the possibilities of putting technological devices to aesthetic use, the recurrence of the theme and the way it is treated show that he has not yet resolved this question: it needs to be continuously raised and still demands an explanation.

A second observation is also simple: in contrast with his futurist perspective, the artist looks to the past when researching the history of perfume and considering the memory of the place. Nonetheless, Perfume de princesa recurs to the wind as a form, which was also done in the works shown in 2010 at Instituto Tomie Ohtake, as observed by critic Rodrigo Naves. Instead of fluttering fabrics and the wind buffeting the face of the spectators, the machine designed by Wagner Malta Tavares blows floral fragrances along the historical alley in São Paulo’s downtown district, punctuating the path of the passersby with traditional essences of perfumes, including rose, lavender and angelica. Beco do Pinto is transformed into a time tunnel with the reconstitution of the 19th-century olfactory atmosphere, headed up by Domitila de Castro Canto e Melo (1797–1867), who had a longstanding affair with Dom Pedro. From 1834 onward, she resided in the mansion that came to be called Solar da Marquesa de Santos, and which today belongs to the Museu da Cidade.

A more ambitious reflection could be made based on observations about this olfactory experience, which by means of that technological structure looks to both the past and the future. According to anthropologist Alain Corbin, the search for the ideal city and the idealization of the natural landscape (as in the English gardens) are linked to an “accentuation of the sensibility” from the second half of the 18th century onward. The author characterizes certain public health measures as an “offensive against the olfactory intensities of public space.” The systematic battle against the bad smell of the sewers, hospitals and prisons described by Corbin is not related with a freer use of creams, perfumes and other cosmetics, but rather with discipline in their employment.

The history of perfume goes back to ancient Egypt (Gombrich comments on perfume utensils decorated with images of the gods), but between the 18th and 19th centuries traditionally used aromatic substances were spurned by citizens terrorized by the microscopic world revealed by Lavoisier and convinced that the civic virtues stemmed from a natural state of humanity. In accordance with a Puritan idea of nature, the body’s natural odors were valorized, and the use of perfumes plummeted. Even taking a bath was seen as an act of vanity potentially harmful to one’s health. Floral colognes substituted creams based on animal extracts, and began to take part in a game of “imperceptible codes” linked to the feminine realm, in accordance with a strengthening association between the woman and the flower. Curiously, the reinvigoration of nobility intensified the use of these refined perfumes as elements of social distinction and for the dissemblance of amorous seduction.

A recent biographer of Marquesa de Santos, Paulo Rezzutti, cites descriptions by travelers who were struck by the city of São Paulo’s cleanliness in the late 18th century. A few decades later, separated from Dom Pedro and living in the mansion on Rua Nossa Senhora do Carmo, Domitila demanded the reconstruction of Beco do Pinto, invaded by a neighbor. According to Rezzutti, slaves tasked with going down the alley to throw trash into the Rio Tamanduateí would sometimes throw it in the marchioness’s yard. Although the contact between people of different generations and social classes by means of their singular aromas or “olfactory impressions” is appreciated, it is impossible to distinguish it from the social control that each individual exercises on the odors of others and their own.

By reconstituting possible formulas of perfumes from past eras and effusing them in places of memory (including inside the Solar and around a bathtub that the marchioness never used), Wagner Malta Tavares problematizes the distinction between factual and imaginary history. A mistress of the emperor and an illustrious lady from São Paulo, Domitila de Castro Canto e Melo Lindfors bolstered the image of the woman from São Paulo, who, also according to Rezzutti, was considered beautiful and independent. Without disregarding the web of meanings it is enmeshed in, Wagner Malta Tavares’s work crystallizes fantasies, prejudices, moral judgment, and idolatry: Domitila’s tomb at Consolação Cemetery has been venerated in different ways, and perfume is also an attribute of the cadavers of saints.

José Bento Ferreira




Instalação “Perfume de Princesa”, do artista Wagner Malta Tavares
Abertura: sábado, dia 02 de novembro, às 11 horas
Período expositivo: 2 de novembro de 2013 a 11 de maio de 2014
Locais: Casa da Imagem, Beco do Pinto e Solar da Marquesa
Endereço: Rua Roberto Simonsen, 136
CEP 01017-020 - Centro - São Paulo- SP

Horários de funcionamento: de terça-feira a domingo, das 9 às 17 horas
Telefone: (11) 3106 5122 - Ramal 203/205 (Casa da Imagem)
Entrada gratuita e livre para todos os públicos