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Poente - felipe cohen

Todo dia a mesma hora

A produção de Felipe Cohen se desenvolve a partir de uma discussão em torno da atualização de arquétipos, simbologia tradicional, gêneros da história da arte e questões clássicas. O artista busca novos modos de representação para esses temas na arte, através de pequenos fenômenos do cotidiano e da conjunção de materiais clássicos da escultura, como o mármore e o granito, com materiais industriais de uso banal, como lâmpadas, caixas e copos, onde a matéria nobre é submetida à forma do elemento industrial, de modo que essa operação resulte em um todo harmonioso, de encaixe preciso, fazendo com que esses elementos tão opostos gerem um conjunto coeso, que repousa e convive em perfeita conjunção, em uma aderência não conflitante. Há um interesse do artista em uma ‘matéria fantasma’, onde um objeto perde sua fisicalidade por um artifício do trabalho, ou uma matéria sem corpo, como a luz ou a sombra, ganha massa, perdendo sua leveza e mobilidade. Nessa inversão, se configura uma quase ausência, nunca se tem esse objeto ou matéria em sua totalidade, há sempre uma perda.

Em ‘Poente’, instalação desenvolvida para a Capela do Morumbi, Felipe cobriu uma parte considerável do piso do espaço com vidro, sobre o qual um grande galho segmentado é posicionado simulando um mergulho nesse piso de vidro. É através desse posicionamento, e do rebatimento do galho e das paredes no vidro, que o artista converte o interior da Capela em um grande alagado, paralisado em um momento dúbio, entre ser líquido e ser sólido, congelado no ritmo de um sopro de vento calmo. Uma luz crepuscular vem de fora do espaço, atravessa a janela e banha uma das paredes do interior. Essa iluminação converte todo o espaço interno da Capela em trabalho do artista, potencializa a atmosfera pesada que o trabalho traz ao espaço, e a sensação de pausa na passagem do tempo dessa paisagem submersa em um lusco-fusco constante.

Felipe normalmente trabalha com a escala do utensílio; mesmo suas instalações são compostas por objetos de pequena escala, do uso doméstico. ‘Poente’ é a primeira obra onde o artista aborda a questão da paisagem em grande escala. Ainda assim, todo o espaço parece ser tratado como uma miniatura agigantada. A junção das paredes de taipa-de-pilão com as paredes brancas de alvenaria desenham um horizonte, uma topografia que certamente suscita as colagens de representação de paisagem realizadas pelo artista. É como se ao entrar no espaço, entrássemos também em uma caixa de papelão, das que Felipe costuma utilizar em seus trabalhos, que recebeu recortes e colagens nas laterais internas. Uma paisagem capturada, contida e guardada em uma prateleira, ou vitrine, como nos dispositivos de exposição que o artista incorpora em seus objetos.

O convite a caminhar sobre a paisagem alagada que ocupa o interior da Capela remete, quase que imediatamente, à passagem bíblica onde Cristo caminha sobre as águas. A projeção desse reflexo fantasma também traz o tom da passagem narrada por Mateus na Bíblia. A menção à religião se repete em ‘Anunciação’, trabalho de 2008, agora apresentado na sala do Batistério da Capela, onde o artista ensaia a comunhão de uma taça posta sobre o piso, com uma lâmpada que pende do teto do espaço. As formas dos objetos e a luminosidade da lâmpada os transformam em único, é como se a luz ganhasse peso e puxasse a lâmpada para baixo, como na história bíblica onde o imaterial ganha corpo.

Talvez a instalação se apresente como proposição de um milagre. Não o caminhar de Cristo sobre as águas, ou a materialização de algo divino, como na passagem da anunciação, mas o milagre da conversão de uma matéria em outra, mesmo que seja por uma ilusão que dure apenas um instante, ou ainda o milagre de matar o tempo, paralisá-lo, na tentativa que esse instante-ilusão perdure.

Douglas de Freitas




Felipe Cohen (São Paulo, 1976)
Graduado em desenho e escultura pela Fundação Armando Álvares Penteado - FAAP, São Paulo. Em 2001, foi selecionado para o Programa de Exposições do CCSP, o que lhe valeu sua primeira individual. Apresentou outras individuais na Galeria Virgílio, no Centro Universitário Maria Antonia e na Galeria Marília Razuk, todas em São Paulo. Em 2009, teve sua primeira individual no Rio de Janeiro, na Galeria Anita Schwartz. Em 2010, apresentou exposição individual na Feira Internacional de Arte de Madrid, ARCO, sendo um dos artistas convidados para o programa Solo-projects. Entre algumas exposições coletivas de que participou, vale destacar a 8ª Bienal do Mercosul e mostras realizadas no Centro Cultural São Paulo, Instituto Itaú Cultural, Galeria André Viana (Porto, Portugal) e Museum of Contemporary Art (Arizona, EUA). Foi premiado na mostra Fiat Mostra Brasil em 2006. Dois anos depois, foi selecionado como candidato para a bolsa da Fundação Iberê Camargo e recebeu destaque na revista digital da instituição. Em 2009, ganhou o prêmio aquisição Banco Espírito Santo na SP Arte, e seu trabalho passou a integrar a coleção da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Em 2010, teve duas obras adquiridas pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 2011, foi finalista do Prêmio Marcantonio Villaça e participou da exposição de abertura do Instituto Figueiredo Ferraz, em Ribeirão Preto. Em 2010 e 2012, foi indicado para o prêmio PIPA.

Capela do Morumbi
Uma das unidades do Museu da Cidade de São Paulo da Secretaria Municipal de Cultura, a Capela do Morumbi situa-se em um terreno que pertencia à antiga Fazenda do Morumbi, importante produtora de chá do início do século XIX. Na década de 1940, a Cia. Imobiliária Morumby efetivou o loteamento de suas últimas glebas. Fazia parte deste loteamento a antiga casa-sede da fazenda e, em suas proximidades, uma edificação em ruínas de taipa de pilão. A atual edificação foi construída à maneira de uma capela pelo arquiteto Gregori Warchavchik em 1949 sobre estas ruínas. No final dos anos 1970 foi convertida em espaço para realização de eventos culturais sob a administração da Secretaria Municipal de Cultura e desde 1991 abriga exposições que estabelecem relação de aproximação entre a arte contemporânea e o patrimônio histórico, consolidando-se como espaço para instalações site specific na cidade de São Paulo.

Nestes 21 anos de projeto, a Capela do Morumbi recebeu 112 projetos que desafiaram a especificidade de seu espaço, entre os quais se destacam os dos artistas Carlos Fajardo, Iole de Freitas, Dudi Maia Rosa, Sergio Sister, Carmela Gross, Carlos Vergara, José Resende, Leonilson, Nelson Leirner, Albano Afonso, Sandra Cinto, Daniel Acosta, Carlos Eduardo Uchôa, Wagner Malta Tavares, Ana Paula Oliveira, Guto Lacaz, Laura Vinci, José Spaniol, Marcelo Moscheta, a dupla Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti, Alexander Pilis, Maurício Ianês, Tatiana Blass, Lucia Koch e Iran do Espírito Santo.


Evento: Poente, instalação do artista Felipe Cohen
Abertura: 28 de setembro de 2013, sábado, das 14 às 18 horas
Período expositivo: de 29 de setembro de 2013 a 31 de julho de 2014



Local: Capela do Morumbi
Endereço: Avenida Morumbi, 5387, Morumbi.
Telefone: 11 3772.4301
Horário de Funcionamento: de terça a domingo, das 9 às 17 horas
Entrada gratuita e livre