Foto
Pedra que repete

Instalação de João Loureiro
23 de junho a 15 de setembro de 2013

Não é só que as peças de João Loureiro se parecem com a projeção tridimensional de representações gráficas – o trabalho também quer "bidimensionalizar" o espaço onde se apresenta; torná-lo virtualmente plano, para agir ali como imagem; sobrepor-se ao contexto e animá-lo com volumes que estão o tempo todo em atividade; num ritmo do tipo "enquanto descansa, carrega pedras"; ou seria algo como "enquanto carregam-se as pedras, a economia gira"?; talvez os dois, nem por isso há sinal de progressão; o que a renitência, essa agitação surda, da exposição faz é desconfiar dos valores da moeda – na prática, mordê-la; deslocar sorrateiramente as coisas, de um lado para o outro, de volta, de novo; e jamais abolir o acaso, mantendo o fado, a sorte, de pé, cara e coroa a uma só vez; até que, juntas, gerem uma terceira e uma quarta imagens: figura e fundo, porém, nunca simultâneas, apenas reversíveis, ou uma ou outro, sem chance de um resultado, sem chance de qualquer elemento totalizante; como acontece, aliás, entre os trabalhos e o lugar, relação para a qual não está dada a integração; ao contrário, aqueles, os trabalhos, não se camuflam nem alteram as características físicas deste, o lugar; mais, resistem a aderir ao entorno, mantido como tal, um entorno; descolam-se do beco, da sala da casa, para, com discrição, reivindicar evidência, visibilidade, tanto quanto independência; dá no mesmo dizer que, além de se fazerem presentes, tomam partido; embora concebidas com base em especificidades arquitetônicas, urbanísticas, socioculturais, enfim, na história da região – inclusive nos modos como o passado faz as suas aparições na atual configuração do local –, as peças insistem em afirmar as próprias especificidades; leis internas que regem essa obra há cerca de 20 anos e que se fundamentam em procedimentos de figuração, na escolha de referentes mundanos para uma representação esquemática, descendente do desenho – seja ele técnico, da história em quadrinhos, do desenho animado; por exemplo, daquela materialidade ambígua, aparentemente rígida e que se mostra molenga em determinadas ocasiões –, muitas vezes com aspecto de brinquedo, ou pelo menos com uma visualidade de atração infantil, em construções rigorosas – desde a ideação até o acabamento de aparência industrial –  e que oscilam entre as duas e as três dimensões; essa produção tem e deixa claro que, de um lado, as intervenções que realiza e, de outro, a autonomia de seus objetos não são excludentes; de tão artificiosos, os trabalhos operam para desnaturalizar a apreensão do real, do qual, por sua vez, a ficção participa; mais do que imagens em movimento, estão em ação aqui imagens de movimento, de pedras que se movem, de uma moeda em rotação, sem pausa nunca; mas, claro, essas não são pedras nem moeda; tampouco são representações de pedras e moeda; são, isso sim, a projeção tridimensional de representações gráficas de pedras e moeda que assumem o funcionamento de máquinas, de motores acionados por e para exercícios de imaginação; aos giros, em circuitos, num bate-volta; contínuos, sem começo nem fim.

José Augusto Ribeiro




The pieces of João Loureiro not only resemble a three-dimensional projection of graphical representations – his work also wants to "bidimensionalise" the space where it is displayed; to make it virtually flat, to function there as image; to override the context and animate it with volumes that are constantly in activity; in a "resting-while-carrying-stones" manner; or even "while-stones-are-carried,-the-economy-ticks"?; perhaps both, but with no signs of any progression; what the reluctance, the silent restlessness of the exhibition does is distrust currency values – in practice, to bite them; stealthily displace things, from one side to the other, again; never abolishing chance, keeping fate and destiny standing, heads and tails simultaneously; until they generate, together, a third and a fourth images: figure and background,never simultaneous, however, only reversible, one or the other, with no possibility of a result, without any chance of a totalising element; as happens, moreover, between the works and the place, a relation to which integration is not given; on the contrary, the works are neither disguised nor change the physical characteristics of the place; more than that, they resist to adhere to their surroundings, maintained as such, surroundings; they move away from the alley, from the living room, to discretely claim evidence, visibility, as well as independence; it is the same as saying that, in addition to being present, they take sides; although they are conceived based on architectural, urban and socio-cultural specificities, after all, in the history of the region – including the ways in which the past appears in the current configuration of the place –, the works insist in affirming their own specificities; internal laws that governed the work for over 20 years and which are based on figuration procedures, on the choice of mundane references for schematic representation originated from drawing – technical, comic books or animated films; for example, from that ambiguous, seemingly rigid materiality which proves at times soft –, often like a toy, or at least with a visuality of child-like attraction, in rigorous constructions – from ideation to a seemingly industrial finish – oscillating between two and three dimensions; this production has and makes it clear that, on the one hand, the interventions it carries out and, on the other, the autonomy of its objects, are not mutually exclusive; the works are so artful that they operate to denaturalise the apprehension of the real, in which, in turn, fiction participates; more than moving images, here moving images act. Images of moving stones, of a coin spinning with no pause; but, of course, these are not stones or a coin; nor are they representations of stones and a coin; they are rather the three-dimensional projection of graphic representations of stones and a coin which take over the functioning of machines, engines driven by and for an exercise in imagination; in spins, circuits, back and forth, with no beginning or end.

José Augusto Ribeiro




Casa da Imagem de São Paulo
Rua Roberto Simonsen, 136-B
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Visitação de Terça a domingo, das 9h às 17h
Entrada franca


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