Foto
Repaisagem

Exposição de Marcelo Zocchio
23 de junho a 9 de março de 2014

A escuta do lugar
Porque uma cidade
sempre contém outra
dentro de si.

Mário Quintana

Enquanto escrevo este texto, o apartamento do vizinho passa por um processo de “modernização”, termo utilizado atualmente pelos corretores imobiliários como um sinônimo mais glamoroso de “reforma”. O choque de marretas contra as paredes e o trânsito da Avenida Angélica compõem a trilha sonora desta escrita, tornando o som dos dedos no teclado do computador mais um instrumento da grande sinfonia de carros e concreto.

O espírito renovador, acompanhado pelo apagamento do passado, não é novo nesta metrópole. Como grande parte da paisagem paulistana, o local onde se encontra a Casa da Imagem já passou por diversas mudanças. A construção que se vê hoje data de 1880. Antes disso, havia um casarão de taipa que abrigou, entre outras coisas, um hotel chamado Boa Vista, a partir do qual os hóspedes podiam “gozar-se da linda vista da várzea”, referindo-se às margens do Tamanduateí. Desde então, o rio foi retificado e silenciado. A várzea foi transformada em concreto. A boa vista encurtou-se e passou a ser uma cortina de árvores que habitam o pátio da casa, protegendo o olhar e atenuando a brutalidade com que a paisagem foi alterada.

A escuta de Marcelo Zocchio não se dirige ao ronco incessante da cidade voraz. O que o artista ouve é o silêncio de uma ausência, o vácuo deixado por um passado invisível que o faz perfurar o presente. Pesquisando imagens antigas, Zocchio indaga-se sobre o efeito escultórico do tempo em determinados locais da cidade. Utiliza-se das fotos de arquivo como se fossem mapas, onde busca o exato ponto a partir do qual as fotografias foram tiradas e ali reencena o clique original. Tal mirada é o único ponto fixo de toda essa história. É onde o artista finca a ponta seca do compasso e inicia o meticuloso desenho de sobreposição espacial e temporal apresentado em Repaisagem.

Na imagem que mostra a Avenida 9 de Julho, vista a partir do Viaduto Martinho Prado, percebem-se algumas das escolhas do artista na edição das imagens fundidas. O lado esquerdo da foto prioriza o local em 1940, clicado por Benedito Junqueira Duarte. Ali ainda encontramos a vegetação de um terreno baldio, onde um grupo de crianças joga futebol. No entanto, já é possível notar ao fundo a cidade em construção, que resultaria no espaço apertado visto no lado direito da foto, em 2012, onde predomina um paredão de prédios. É nessa parede que se vê a sombra projetada dos edifícios que estavam no outro lado da rua no momento em que a foto atual foi tirada. Ao fundir as duas imagens, resta a sombra, mas já não se tem mais o corpo que a produziu. Revela-se assim o passado daquela fotografia, e não o do lugar.

Tais curtos-circuitos temporais e espaciais minam o senso de direção e, mais profundamente, ativam um estranho sentimento de pertencimento. Estranho porque a arqueologia proposta desencava uma cidade que não deixou traços no presente, e portanto não é familiar. Assim, a noção de pertencimento não se dá em relação a uma identidade estável construída historicamente, como o termo costuma evocar. A familiaridade reside no fluxo constante, na eterna substituição do presente por um vir a ser. Desmorona-se uma ideia apaziguada de lugar, movimento precisamente cartografado pela fina escuta do artista. Tudo o que se vê aqui não é, apenas está.

Jorge Menna Barreto




Because a city
always contains another
within.

Mário Quintana

On Hearing a Place

As I write this, my neighbour’s apartment is undergoing a process of “modernization,” a term used currently by estate brokers as a more glamorous synonym for “renovation.” The impact of hammers against the walls and the traffic in Avenida Angélica are the soundtrack of this text, turning the sound of my fingers on the computer keyboard into another instrument of this great symphony of cars and concrete.

The spirit of renewal, together with the erasure of the past, is not something new in the metropolis. Like great part of São Paulo’s cityscape, the localization of Casa da Imagem has already undergone several changes. The current building was built in 1880. Before that, there was a rammed-earth mansion which housed, among other things, a hotel called Boa Vista, from where the guests could “enjoy the beautiful view over the floodplain,” referring to the banks of the Tamanduateí river. Since then, the river has been straightened and silenced. The floodplain was turned into concrete. The beautiful view was shortened and became a curtain of trees in the courtyard, protecting the eye and softening the brutality with which the landscape was modified.

Marcelo Zocchio does not pay attention to the incessant and voracious rumble. What he hears is the silence of absence, the void left by an invisible past which makes him pierce through the present. By researching old images, Zocchio reflects about the sculptural effect of time on certain place of the city. He uses archival photographs as if they were maps, looking for the exact point where those pictures were taken and reenacting the original shoot. This view is the only fixed point in this whole process. It is where the artist sticks the dry tip of the compass and starts the meticulous drawing of spatial and temporal superposition shown in Repaisagem.

In the image of Avenida 9 de de Julho, seen from the Martinho Prado viaduct, some of the artist’s choices can be perceived in the editing of merged images. The left side of the photograph prioritizes the location in 1940, shot by Benedito Junqueira Duarte. There one can see the vegetation of a vacant lot, where a group of children play football. However, one can already discern, in the background, the city under construction, which resulted in the tightly packed plot on the right, in 2012, with a wall of buildings. On this wall can be seen the shadows of the buildings across the street when the present-day photograph was taken. By fusing these two images, the shadow remains, but the body that produced it is no longer here. Thus, the past of that photograph, and not of that place, is revealed.

Such temporal and spatial short-circuits undermine our sense of direction and – in a deeper way – activate a strange feeling of belonging. Which is strange, because the archeology that Zocchio proposes digs up a city whose traces cannot be found in the present, so it is not familiar. Thus, the idea of belonging does not happen in relation to a stable, historically built identity, as the term usually evokes. Familiarity lies in the constant flow, in the eternal replacement of the present with a chain of transformations. Our peaceful notion of place is destroyed, a movement mapped in detail by the artist’s attentive ear. Everything we see is transitory.

Jorge Menna Barreto



Casa da Imagem de São Paulo
Rua Roberto Simonsen, 136-B
CEP 01017-020 - Sé – São Paulo SP
Telefone 11 3106-5122

Visitação de Terça a domingo, das 9h às 17h
Entrada franca


Contato.casai@prefeitura.sp.gov.br