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A Casa das Fontes

Ainda água,  enfim água

O trabalho de Sandra Cinto propõe um constante exercício de reconstrução, desejo de reconstrução, ou ainda, tentativa de reconstrução das ruínas do mundo contemporâneo. A artista lança mão de uma cartela de elementos simbólicos, escadas, pontes, abismos, candelabros, velas e brinquedos, em fotografias, objetos, desenhos e instalações, para criar um ambiente onírico, coabitado por melancolia e esperança. 

A Casa das Fontes é resultado da investigação realizada pela artista nos últimos meses sobre a arquitetura bandeirista e seu uso. Na instalação, fontes d’água funcionais ocupam os três cômodos principais da Casa do Sertanista, para onde foi especialmente concebida. Fundidas em concreto, as fontes estabelecem um contraponto entre a cidade contemporânea e a solidez da arquitetura bandeirista de taipa-de-pilão. Deste modo, Sandra realiza um deslocamento para o espaço privado de elementos públicos e íntimos, em menção ao uso do espaço no século XVII, onde a casa e seu entorno reuniam uma série de funções, hoje inconcebíveis para um espaço residencial, mas que por seu isolamento em relação ao centro urbano, ali aconteciam. A brutalidade do concreto, que a artista deixa de esconder, afirma a presença das peças no mundo; seu peso visual não permite a leveza incorpórea do mundo dos sonhos, por mais que seu deslocamento do espaço público para o privado  e suas formas,  apontem para isso.

As fontes retomam os elementos simbólicos da obra de Sandra Cinto. Se em trabalhos anteriores eles aparecem renovados, alegoria de uma utopia almejada, nas fontes eles se colocam entre ser monumento público e lápides sepulcrais dessas utopias, uma constatação de suas ruínas. A água que circula na fonte deixa marcas sobre ela e acelera seu desgaste. Ao mesmo tempo, uma fonte sempre remete ao imaginário de ‘fonte dos desejos’, onde ao jogar uma moeda é concedido o direito a um pedido e assim, no embate amplamente discutido no trabalho da artista, a constatação de um mundo em ruínas se apresenta com a possibilidade de dias melhores, em um persistente exercício de renovar as esperanças.

Em ciclo constante, as fontes também não deixam de apontar para o tempo que passa. Tudo o que é cíclico assinala uma marcação de tempo, seja a volta da terra em seu eixo, ou o movimento das marés estabelecido por sua relação com o sol e a lua. No entanto, essa marcação do ciclo das águas nas fontes é abstrata. É possível notar o constante passar do tempo, mas não contá-lo. Ao seu modo, a artista evidencia o deslocamento de tempo que presenciamos ao entrar na casa.

Com o pé direito mais baixo, e fora do eixo principal da casa formado pelos três cômodos onde as fontes estão instaladas, a última sala expositiva recebe uma série de fragmentos de fontes que não deram certo, quebraram ou não tinham condições técnicas para serem usadas. As peças foram deslocadas e posicionadas do modo em que se encontravam na fábrica que produziu os demais trabalhos da instalação. Estes fragmentos são testemunhos da falha, possibilidade contida em toda tentativa. São registros de histórias que nunca se consolidaram.

Nos últimos sete anos, a produção da artista se desdobrou em uma reflexão sobre a água, na calmaria de um horizonte marítimo ou em um mar revolto. A água é também elemento fundamental na história da arquitetura bandeirista, onde a localização das construções é sempre próxima aos rios, caminhos de deslocamento na cidade antiga. Se nos desenhos da artista a água se solidifica como montanhas [1], na instalação ela se apresenta em toda a sua fluidez.

Em A Casa das fontes a água em si é o único outro elemento usado além do concreto, e se opõe a sua secura. Não fossem suas características físicas - ser insípida, incolor e inodora - se faria mais presente que o próprio concreto. Mesmo contida pelas fontes, é ela que preenche o espaço da casa, de maneira delicada, com o som do seu constante correr. Assim, a água continua a questão do trabalho de Sandra Cinto, não mais a sua representação, mas enfim a água.

Douglas de Freitas


[1] referência ao poema de João Cabral de Melo Neto, Imitação da água, que norteia a última grande exposição de mesmo nome realizada pela artista em São Paulo, no instituto Tomie Ohtake, em 2010.

SANDRA CINTO
Nasceu em 1968 em Santo André – SP. Vive e trabalha em São Paulo

Formada em educação artística nas Faculdades Integradas Teresa D’Ávila – Fatea, em Santo André, Sandra Cindo vem expondo sua obra em todo o mundo ao longo dos últimos anos, realizando exposições individuais e coletivas em galerias e instituições no Brasil, Estados Unidos, França, Espanha, Argentina, Portugal e Japão. Entre suas exposições individuais destacam-se as realizadas no Seattle Art Museum (Seattle - EUA), The Phillips Collection (Washington – EUA), Instituto Tomie Ohtake (São Paulo – Brasil), Museo de Arte Contemporáneo Fundação Fenosa (A Coruña – Espanha), Centre de Création (Bazouges la Perouse – França), Casa de America (Madri – Espanha), Museu de Arte da Pampulha (Belo Horizonte – Brasil), Museu de Arte Moderna (São Paulo – Brasil), Centro Cultural São Paulo (São Paulo – Brasil), Capela do Morumbi (São Paulo – Brasil) e galerias representativas. Nas coletivas ganham destaque a participação XIV Bienal de São Paulo, Pavilhão da Bienal, São Paulo, Brasil; as Paralelas  de 2010, 2008, 2006 e 2001, São Paulo, Brasil; 2ª e 5ª Bienais de Artes Visuais do Mercosul, Porto Alegre, Brasil; 2nd Trienal Poligráfica de San Juan: América Latina y El Caribe, San Juan, Porto Rico; Japan Brazil: Creative Art Session 2008, Kawasaki City Museum, Kawasaki, Japão; Parangolé, Fragmentos desde los 90, Museo Patio Herreriano, Valladolid, Espanha; 4a Bienal do Barro de América, Caracas, Venezuela; 26ª Bienal de Pontevedra, Pontevedra, Espanha; Elysian Fields, Centre Georges Pompidou, Paris, França; ARCO’99, Project Rooms, Madri, Espanha; Projeto Antarctica Artes com a Folha, Pavilhão Padre Manoel de Nóbrega, São Paulo, Brasil. Além disso suas obras figuram em coleções públicas de instituições de arte como a Pinacoteca do Estado de São Paulo; MAC-SP; MAM-SP; MAM-RJ; MAM-RE; Inhotim – Centro de Arte Contemporânea, Brumadinho, Brasil; Instituto de Arte Contemporânea de Boston, EUA; Museu de Arte Contemporânea de San Diego, EUA; Centro Galego de Arte Contemporánea, Santiago de Compostela, Espanha; Fundación Pedro Barrié de la Maza/Conde de Fenosa, A Coruña, Espanha; Fundación ARCO, Espanha e Albright - Knox Gallery, Buffalo, EUA; Bob and Renee Drake, Wassenaar, Holanda. A artista também atua como professora universitária e orientadora de grupos de estudo de artistas jovens no espaço Ateliê Fidalga, em São Paulo.

CASA DO SERTANISTA (CASA DO CAXINGUI)
Uma das unidades do Museu da Cidade de São Paulo da Secretaria Municipal de Cultura, a Casa do Sertanista remonta a meados do século XVII. Sua arquitetura em três lanços, telhado de quatro águas e paredes em taipa de pilão é bastante característica das casas bandeiristas, obedecendo a um esquema fechado e rígido, tanto do ponto de vista da construção quanto no que se refere à definição arquitetônica, plástica e funcional.

Segundo pesquisas sobre a origem desta casa, o Padre Belquior de Pontes teria sido o primeiro morador de que se tem notícia. Sabe-se, entretanto, que no final do século XIX pertenceu à família Beu, sendo posteriormente transferida à família Penteado que acabou por vendê-la à Cia. City de Melhoramentos. Esta, por sua vez, doou o imóvel à municipalidade em 1958 que passou a recuperá-lo em 1966. Em 1970, concluídas as primeiras obras de restauro, foi instalado o “Museu do Sertanista”, voltado essencialmente para a cultura indígena.

Em 1989, por meio de um decreto de permissão de uso, esta casa histórica passou a abrigar o Núcleo de Cultura Indígena da União das Nações Indígenas, instalando-se, então, a Embaixada dos Povos da Floresta. Com a saída do Núcleo de Cultura Indígena em 1993, a casa passou por novas obras de conservação e restauro sendo ocupadade 2000 até 2007 pelo Museu do Folclore “Rossini Tavares de Lima”, que teve em 2008 seu acervo incorporado à coleção do Pavilhão das Culturas Brasileiras, passando por procedimentos de conservação e restauro.

A Casa das Fontes”, instalação da artista Sandra Cinto
Abertura: 06 de abril 2013, sábado, das 14 às 18 horas.


Local: Casa do Sertanista / Caxingui
Endereço: Pça. Dr. Enio Barbato, s/nº - Caxingui, São Paulo, SP
Fone: (11) 3726 6348
Aberto de terça a domingo, das 9 às 17 horas
Visitas orientadas. Entrada franca