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Recuo - Iran do Espírito Santo

O desenho parece permear a obra de Iran do Espírito Santo, do modo mais tradicional como imagem que representa algo, através do design dos objetos usados como ponto de partida para seus trabalhos, ou ainda através do desenho arquitetônico, que o artista toma emprestado constantemente na apresentação de seus trabalhos. Suas pinturas são realizadas nas próprias paredes do espaço expositivo, suas instalações e objetos se articulam com esse ambiente e usualmente tomam o próprio modo consolidado para exibição de arte para realizar tal operação.

Iran lida com elementos herdados do minimalismo, em seu apuro estético e seu refinamento formal, e da arte pop, em seu universo de imagens-símbolos, convertendo elementos do cotidiano - muitas vezes extremamente banais - em um modelo de como eles deveriam, ou poderiam ser, pura forma. Como em um desenho hiper realista, regras ou fórmulas que pouco dizem sobre a realidade configuram uma imagem tão harmoniosa e perfeita que passa a impressionar mais que a própria realidade. Dessa maneira, os objetos do artista perdem suas funções para ganhar perfeição formal, a exemplo da caixa de sapatos esculpida no mármore em simetria perfeita, porém maciça.

Uma dessas regras, a perspectiva construída através de um ponto de fuga, é o artifício usado para a instalação realizada pelo artista para a Capela do Morumbi. Convencionada pelo Renascimento, a perspectiva possibilitava aos pintores um ilusionismo maior, tornando a pintura uma janela para outra realidade. Coube à arte moderna afirmar a planaridade dos meios, romper com esse procedimento, e criar outras soluções para a representação.

A instalação consiste em uma pintura mural realizada em tons de cinza sobre um painel construído em madeira e gesso nas dimensões da parede do fundo da Capela. Distribuído em cinquenta e três tiras precisas, do mais claro ao mais escuro, o cinza se intensifica ao se aproximar do centro do painel, onde um último tom, o mais escuro, reproduz de forma reduzida o desenho da parede, que é também síntese formal do espaço arquitetônico.

Cria-se assim o Recuo, solução bidimensional que propõe o prolongamento da nave da Capela do Morumbi por mais alguns metros, de maneira asséptica e geométrica, exatamente o oposto do espaço real. Como nos demais trabalhos do artista, em Recuo se coloca uma dualidade entre abstração e realidade. Resultado da maneira que é realizado, com a pintura de sucessivas linhas de cinza, ao mesmo tempo em que é abstrato e superficial, e ao modo modernista afirma sua planaridade, à distância de quem entra na Capela o que se vê é uma imagem perspectivada.

Mais do que responder ou solucionar, o trabalho de Iran se coloca como uma pergunta inquieta, desconfiada e irônica que, tanto atrai o espectador em uma experiência de suspensão por sua visualidade instigante e elegante - características que o artista soube extrair bem do design -, como cria ruído no espaço e se comporta como uma imagem paradoxal, sem resposta fácil. É um jogo visual de percepção, como na escultura maciça da forma do vazio da fechadura realizada pelo artista; não se pode ver através dela, mas ela reconfigura o espaço ao seu redor.
                                                                                    Douglas de Freitas

Iran do Espírito Santo (Mococa/SP, 1963).
Vive e trabalha em São Paulo.

Na escultura, desenho ou em pinturas sobre parede, Iran do Espírito Santo trabalha constantemente com códigos de representação. Em suas esculturas de lâmpadas ou caixas de sapato, o artista transforma objetos comuns em modelos ideais, tangenciando a forma geométrica pura, pelo domínio absoluto da técnica e da potencialidade de cada material. Outras obras dialogam com a arquitetura por meio da intervenção direta sobre as paredes; da proporção entre as escalas do objeto e o espaço, ou ainda pela alteração da forma como o espaço é visto. Iran do Espírito Santo já participou das 48ª e 52ª Bienais de Veneza, da 19ª e 28ª Bienais de São Paulo, da 6ª Bienal de Istambul e da 5ª Bienal do Mercosul. Uma retrospectiva de sua obra foi exibida em 2006/2007 no MAXXI, Museo Nazionale delle Arti del XXI Secolo, Roma, no Irish Museum of Modern Art, Dublin, na Estação Pinacoteca. Suas obras figuram nas coleções do MoMA, Nova York, do Museum of Contemporary Art de San Diego, e do MAXXI, Roma. É representado em São Paulo pela Galeria Fortes Vilaça.

Capela do Morumbi
Uma das unidades do Museu da Cidade de São Paulo da Secretaria Municipal de Cultura, a Capela do Morumbi situa-se em um terreno que pertencia à antiga Fazenda do Morumbi, importante produtora de chá do início do século XIX. Na década de 1940, a Cia. Imobiliária Morumby efetivou o loteamento de suas últimas glebas. Fazia parte deste loteamento a antiga casa-sede da fazenda e, em suas proximidades, uma edificação em ruínas de taipa de pilão. A atual edificação foi construída à maneira de uma capela pelo arquiteto Gregori Warchavchik em 1949 sobre estas ruínas. No final dos anos 1970 foi convertida em espaço para realização de eventos culturais sob a administração da Secretaria Municipal de Cultura e desde 1991 abriga exposições que estabelecem relação de aproximação entre a arte contemporânea e o patrimônio histórico, consolidando-se como espaço para instalações site specific na cidade de São Paulo.

Nestes 21 anos de projeto, a Capela do Morumbi recebeu 112 projetos que desafiaram a especificidade de seu espaço, entre os quais se destacam os dos artistas Carlos Fajardo, Iole de Freitas, Dudi Maia Rosa, Sergio Sister, Carmela Gross, Carlos Vergara, José Resende, Leonilson, Nelson Leirner, Albano Afonso, Sandra Cinto, Daniel Acosta, Carlos Eduardo Uchôa, Wagner Malta Tavares, Ana Paula Oliveira, Guto Lacaz, Laura Vinci, José Spaniol, Marcelo Moscheta, a dupla Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti, Alexander Pilis, Maurício Ianês, Tatiana Blass e Lucia Koch.


Evento: Recuo, instalação do artista Iran do Espírito Santo
Abertura: 19 de janeiro de 2013, sábado, das 14 às 18 horas
Período expositivo: de 20 de janeiro a 01 de setembro de 2013


Local: Capela do Morumbi
Endereço: Avenida Morumbi, 5387, Morumbi.
Telefone: 11 3772.4301
Horário de Funcionamento; de terça a domingo, das 9 às 17 horas
Entrada gratuita e livre